Eduardo Bolsonaro usa comando em comissão como palanque e teste internacional

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Adriano Machado / ReutersEduardo Bolsonaro alinhou sua atuação na CREDN com a pauta do governo do pai para as relações exteriores.

Encontros com representantes de outros países, especialmente embaixadores, com foco na ampliação de acordos internacionais. Audiências públicas para debater assuntos que encontram semelhança com a agenda do governo federal, em especial, a crise humanitária na Venezuela e o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Instalação de subcomissões com temas também afins à pauta do Palácio do Planalto no âmbito internacional. 

Assim tem sido a atuação de Eduardo Bolsonaro como presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados. “Um treinamento para o que vem pela frente”, nas palavras de um amigo do deputado. 

De fato, o filho a quem o presidente Jair Bolsonaro chama de 03 e pretende indicar oficialmente como embaixador brasileiro nos Estados Unidos sempre nutriu interesse por assuntos internacionais e desejo de morar fora do País. Tanto que, desde que se tornou parlamentar por influência — quase exigência — do pai, tornou-se integrante da CREDN.

Na legislatura passada, foi suplente. Neste ano, em um acordo costurado pela cúpula do PSL, partido dos Bolsonaro, Eduardo ganhou a presidência do colegiado.

Em 14 de março, quando tomou posse na presidência da CREDN, deixou claro os temas aos quais daria prioridade: segurança nas fronteiras, comércio exterior e crise na Venezuela. Justamente a agenda do governo na política externa. 

Pouco antes de seu discurso, ele havia se encontrado com Maria Teresa Belandria, embaixadora indicada pelo líder da oposição naquele país, Juan Guaidó. O autodeclarado presidente venezuelano foi até recebido por Jair Bolsonaro. 

“Trata-se de uma crise que há muito deixou de ser um tema de política interna daquele país e o Brasil jamais irá desrespeitar o princípio da não ingerência. No entanto, essa crise atravessou fronteiras. Entre três e quatro milhões de venezuelanos já abandonaram o país por falta de comida e remédios, só para citar dois itens. Nós podemos, por meio de debates e ações, contribuir com a minimização dos problemas”, disse, em seu discurso de posse. 

Vinicius Loures/Câmara dos DeputadosChanceler Ernesto Araújo foi blindado por Eduardo Bolsonaro ao comparecer à CREDN.

Gentil, mas nem sempre

Como presidente, é de Eduardo Bolsonaro a prerrogativa de montar a pauta da comissão, dar a palavra aos deputados, encerrar discussões. O HuffPost assistiu a algumas reuniões da comissão que ficam disponíveis no site da Câmara. Também leu as duas únicas notas taquigráficas presentes na página da CREDN. 

Eduardo é educado e cordial com os parlamentares, inclusive da oposição. Porém, em alguns momentos, tolheu o direito de fala de alguns colegas — sempre sem se alterar. É de praxe ainda a blindagem de membros do governo que comparecem à comissão.

Foi o que aconteceu, por exemplo, quando vários deputados cobraram do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, resposta a questionamentos na audiência pública da qual ele participou em 10 de abril. 

“Há obrigação de resposta quando a pessoa vem aqui através de uma convocação, o que não é o caso. O ministro veio através de um convite. Esta é uma gentileza que o ministro está concedendo a esta comissão, em respeito – eu até destaco e agradeço-lhe pelas palavras – à aproximação entre o ministério e esta Casa”, disse Eduardo Bolsonaro a Zeca Dirceu (PT-PR).  

Palanque indireto

Também na audiência com Ernesto Araújo em 10 de abril, Eduardo Bolsonaro aproveitou para fazer um longo discurso em defesa das pautas nas quais vem trabalhando e mencionou a viagem que havia feito na semana anterior com o pai aos Estados Unidos.

Foi nessa visita que o deputado ficou ao lado de Jair Bolsonaro e do presidente Donald Trump, no salão oval da Casa Branca.

Pablo Valadares/Câmara dos DeputadosApesar de ser cortês à frente da comissão de relações exteriores, Eduardo sempre dá um jeito de alfinetar a esquerda.

“Todos aqui acompanharam, na semana passada, os debates que ocorreram. Muitos criticaram a ida do presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos. A maioria das críticas era sem pé nem cabeça. Entretanto, sabemos que há críticas com fundamento. E essas nós ouvimos e trabalhamos para melhorar a nossa conduta, porque certamente contribuem para um País melhor”, disse Eduardo na audiência pública, quando elogiou o trabalho do ministro Ernesto Araújo, com quem coleciona rusgas nos bastidores. 

O deputado lançou ataques indiretos à oposição, mencionando antigos acordos internacionais formados e até a resistência em fazer moção de repúdio à Venezuela. “Com suas mentalidades doentias, eles acham que lá estão passando por um período revolucionário em que matar milhões de pessoas de fome não é um problema, desde que seja em nome da causa”, destacou. 

Em pauta, a agenda de Bolsonaro

Ao colegiado cabe a análise de projetos sobre política externa e de acordos internacionais assinados pelo País. Durante três semanas, o HuffPost solicitou por diversas vias — telefone, WhatsApp e pessoalmente — à secretaria da CREDN uma lista das propostas aprovadas na comissão, mas não obteve retorno. De acordo com a página do colegiado, as prioridades de análise foram assuntos da agenda do governo.

Não foram apreciadas, por exemplo, a proposta que pretende sustar os efeitos da portaria do Ministério da Justiça que trata do ingresso de “pessoa considerada perigosa”, de autoria do deputado José Guimarães (PT-CE), ou o projeto do deputado Pedro Lucas Fernandes (PTB-MA), que cria o Fundo de Desenvolvimento das Comunidades Carentes e Quilombolas de Alcântara.

Procurada, a assessoria do deputado esclareceu: “Anormal se ele fizesse a agenda do PCdoB”. 

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Treinamento intensivo em relações exteriores

No comando da comissão, o filho do presidente que pode se tornar embaixador nos EUA recebeu quase 20 representantes de outros países com quem, argumenta, o Brasil precisa reforçar os laços. Entre eles estão: República Tcheca, Itália, Argentina, Peru, Canadá, Chile, Nova Zelândia, Egito, Albânia. 

De acordo com a secretaria do colegiado, Eduardo teve mais encontros com representantes estrangeiros no primeiro semestre do que seu antecessor no comando da comissão, Nilson Pinto (PSDB-PA), ao longo de todo o ano passado.

Além de presidir o colegiado, ele também é membro das subcomissões cujas pautas alinham-se aos interesses do governo. São elas as subcomissões especiais para acompanhar aspectos relacionados às fronteiras – que discute a situação na Venezuela -, de comércio exterior, e do uso comercial do centro de lançamento de Alcântara, no Maranhão. É ainda suplente do colegiado que analisa acordos com órgãos internacionais. 

De acordo com aliados e pessoas próximas ao deputado fora do círculo político, ele tem usado a CREDN para se cacifar como nome adequado para assumir a embaixada nos EUA.

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