Por dentro da gloriosa cena da orgia de ‘Rocketman’, que quase foi cortada do filme

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Paramount PicturesTaron Egerton como Elton John na cena da orgia em Rocketman.

Como seria de se esperar em um filme sobre Elton John, o algo de Rocketman são as sequências musicais. De todo mundo cantando I Want Love junto à animação de Saturday Night’s Alright for Fighting, da performance surreal de Crocodile Rock à vinheta solitária de Tiny Dancer – tudo capturado com uma verve deslumbrante que vai além dos clichês das cinebiografias de astros do rock, enfatizando as texturas das canções de Elton.

A melhor dessas cenas é a quase-orgia ao som de Bennie and the Jets, durante a qual Elton (Taron Egerton) flutua sobre corpos excitados que cobrem uma pista de dança. É uma sequência onírica e sensual que lembra Across the Universe, Moulin Rouge – Amor em Vermelho e o psicodélico Climax, deste ano. Mas, num lance curioso, a cena quase foi cortada do filme. David Furnish, marido de John e produtor de Rocketman, incentivou o diretor Dexter Fletcher a mantê-la.

A rapsódia de Bennie and the Jets acontece na segunda metade do filme. Elton já é um superstar que vive entre a tristeza de sua infância e os deleites epicuristas da fama. Viciado em álcool, drogas, sexo e dinheiro, ele está no piloto automático, perdido na decadência da indústria musical. O excesso se concretiza quando ele se vê perdido numa discoteca londrina, com a cabeça cheia de cocaína. Elton está cercado por euforia sensual, mas seu corpo está anestesiado. De torso nu e vestindo calças douradas, Elton surfa a multidão de clubbers que se contorcem no chão. Quando chega ao fim da pista, o colocam numa cama sobre o palco – iluminada por um holofote.

A cena filmada por Fletcher – escrita por Lee Hall (de Billy Elliot e Cavalo de Guerra) – era mais longa que a que vemos no filme. Depois de Elton deitar na cama, homens jorram champanhe sobre seu peito e o erguem, transformando a orgia metafórica em algo mais literal.

Depois de assisti-la durante o processo de edição, Fletcher achou que as imagens eram pouco pungentes. A carnalidade estava “diluindo” o que ele queria transmitir sobre a psique de Elton. Ele insistiu para não haver nudez, talvez prevendo especulações de que os executivos da Paramount Pictures censurariam as imagens – o que eles teriam considerado também na cena em que Elton está na cama com seu agente (Richard Madden). Ainda assim, faltava alguma coisa.

“Era tudo muito belo, meio balé, mas não comunicava o que eu queria”, disse Fletcher. “Era ótimo de ver, mas o que dizia a cena?”

Incerto da mudança necessária, ele considerou simplesmente tirar a cena do filme. Mas teria sido de cortar o coração: inspirada no clube Studio 54 e em cabarés, a equipe de Rocketman passou três dias construindo o cenário, incluindo a escadaria que leva ao palco, em uma antiga agência dos correios. Dezenas de figurantes participaram da cena, alguns quase nus, outros vestindo roupas fantasticamente exageradas. Dois, inclusive, foram recrutados pelo próprio diretor.

Paramount PicturesTaron Egerton e Dexter Fletcher no set de Rocketman.

“Tinha dois caras muito bonitos que conheci numa loja de roupas para quem perguntei: ‘Querem participar de um filme?’ Eles vieram e foram ótimos”, afirmou Fletcher. “Todo mundo estava engatinhando e deslizando na pista, carregando Taron de um lado até o outro. Foi uma coisa que parecia um quadro de Hieronymus Bosch [pintor holandês].”

Aí veio Furnish com a sabedoria de que Fletcher precisava. Foi um momento-chave na evolução de Elton, disse o marido/produtor – um momento em que o cantor deu-se conta de que dependia de drogas e sexo para compensar o afeto que lhe foi negado pelos pais na infância. As coisas que deveriam ser divertidas na vida de Elton eram puro enfado. Cantar e tocar piano significavam libertação, mas o sucesso só trazia os demônios à tona. Ele tinha de se internar numa clínica de reabilitação para se livrar deles.

Com os conselhos de Furnish, Fletcher fez cortes na sequência e entremeou flashes da infância no canto, exatamente os momentos dos quais ele queria fugir. De repente, tudo ganhou a tensão que faltava. A tensão entre o Elton tímido e o cantor famoso que esconde a turbulência atrás de roupas e gestos teatrais.

“Elton estava a ponto de se autodestruir”, disse Fletcher. “Era uma espécie de tentativa de se jogar em casos de uma noite, um mundo de puro hedonismo. O objetivo era criar isso, mas não queria que fosse gratuito.”

Mesmo sem o champanhe, Bennie and the Jets é uma parada lasciva, com o torso de Egerton e os desejos gays de Elton como atração principal. Considerando a hesitação de Hollywood ao retratar o desejo gay, também é uma estética nova para um lançamento de grande estúdio que pretende atingir todo tipo de faixa demográfica.

O recente Bohemian Rhapsody, por exemplo, parecia tratar a homossexualidade de Freddie Mercury de maneira humilhante, como se a atração por homens fosse a falha trágica do cantor do Queen. De qualquer maneira, o filme foi sucesso de bilheteria e rendeu um Oscar para Rami Malek.

Fletcher certamente aprendeu alguma coisa com Bohemian Rhapsody e como honrar um popstar gay. Ele assumiu o filme sobre o Queen a duas semanas do fim das filmagens, depois da demissão de Bryan Singer (por causa das regras do sindicato, Singer recebe o crédito sozinho). Rocketman é um filme melhor, sob todos os aspectos.

Uma distinção chave: Elton também ficou satisfeito.

“Acho que Elton adorou, como eu”, disse Fletcher. “Espero que tenha gostado. Ele nunca me disse nada que não fossem elogios. ‘É o filme que eu queria que fizessem’, ele me disse, então não tem elogio melhor que esse.”

* Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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