‘Não há nada a curar porque ser LGBT não é uma doença’, diz autora de ‘Cameron Post’

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DivulgaçãoDa esquerda para a direita, os protagonistas de ‘Cameron Post’ são interpretados por Forrest Goodluck, Sasha Lane e Chloë Grace Moretz.

Cameron Post é uma adolescente órfã, que vive com sua tia em uma cidade no interior dos Estados Unidos. A década é 1990. Ela ouve bandas como Bikini Kill e 4 Non Blondes em um walkman. Mas tudo ganha novas proporções no momento em que ela é flagrada aos beijos com uma menina. Então, ela é enviada a um centro de “reversão sexual” religioso para “se curar” de seu mal.

“Não há nada a ‘curar’ porque ser LGBT não é uma doença ou um mal-estar”, disse ao HuffPost Brasil Emily M. Danforth, autora do livro homônimo que deu origem ao filme O Mau Exemplo de Cameron Post, que estreou nesta semana no circuito comercial brasileiro. 

“Pensar assim é focar na mentira absoluta de que todas as pessoas deveriam (ou gostariam de) ser hétero e cis [pessoas que se identificam com o sexo designado no nascimento]. Pessoas LGBT são perfeitas exatamente como são – nossas identidades são reais e válidas”, completa Danforth.

Ao discutir a “cura gay”, o longa dirigido por Desiree Akhavan e protagonizado pela atriz Chloe Grace-Moretz, gerou debate nos Estados Unidos e venceu o Festival de Sundance em 2018. No mesmo ano, o filme foi exibido pela primeira vez no Brasil durante a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. 

No Brasil, a estreia no circuito comercial acontece após a polêmica em torno de Boy Erased – Uma verdade anulada, filme também baseado em livro homônimo sobre “cura gay”, que teve estreia cancelada no País.

Em resposta às críticas de censura e eventual associação com a recente eleição de Jair Bolsonaro à época, a Universal Pictures informou que o filme seria disponibilizado apenas em plataformas de streaming e homevideo por “questões comerciais”. 

Arquivo PessoalA escritora e também professora de literatura no Rhode Island College, lançou o livro ‘O Mau Exemplo de Cameron Post’ em 2012.

Danforth afirma que “não tem muitos detalhes da decisão”, mas que Boy Erased é “importante e poderoso” e que acredita que a decisão da Universal sobre o outro filme não influenciará o desempenho de Cameron Post nos cinemas do Brasil. 

O Mau Exemplo de Cameron Post é um filme de estúdios menores, então meu palpite é que ele talvez não atraia o mesmo nível de atenção [que Boy Erased].”

Diferente de Jared, em Boy Erased, e de Cameron Post, no filme homônimo, Danforth, que também é professora de literatura no Rhode Island College, nos Estados Unidos, conta que não passou por terapias de conversão sexual. Mas se debruçou sobre o assunto por, assim como Post, saber o que é crescer como uma jovem “lésbica em uma área rural e conservadora nos anos 1990”. 

“Ao contrário de Cameron, eu (felizmente) não sou órfã e não fui enviada para o ‘Promessa de Deus’ ou qualquer outro lugar como este. Ao invés disso, fui para a faculdade, onde logo conheci outras pessoas como eu e ‘saí do armário’”, disse Danforth por email.

Para lançar o livro em 2012, a autora fez uma extensa pesquisa durante 6 anos sobre romances para o público jovem na temática em que aborda. Neste  processo, entrevistou jovens que passaram por este tipo de tratamento e fez de sua própria experiência com a discriminação um norte.

“Eu ouvi muitos sobreviventes – o que ressalta, infelizmente, o quão comum a prática ainda é (…). É importante que os leitores entendam que o acampamento “Promessa de Deus” ― que eu retrato no livro ― e suas práticas e políticas, é apenas uma das histórias.”

Mas ela pondera que, entre a época em que a personagem vai parar em uma “terapia de conversão” e hoje, nos Estados Unidos, muita coisa mudou.

″É inquestionável que houve um progresso em torno da comunidade LGBT nos Estados Unidos e em outros países pelo mundo (…). De qualquer modo, fico feliz que as pessoas estão prestando atenção e fazendo algo sobre isso.”

Atualmente, Danforth trabalha em seu segundo romance, Plain Bad Heroines (Heroínas simplesmente más, em tradução livre) que será publicado em 2020 ― mas ainda sem previsão de lançamento no Brasil. ″É bem queer em todos os sentidos do termo – e bem assustador também (eu espero)”, brinca a autora.

Leia abaixo a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Recentemente, a Universal Pictures decidiu não lançar o filme Boy Erased no circuito comercial no Brasil, alegando “questões comerciais”. A decisão teve uma repercussão negativa, a produtora foi acusada de “censura” e isso chegou a ser associado com a eleição de Jair Bolsonaro. Cameron Post trata da mesma temática e estreou nas salas de cinema pelo País. A que você atribui essa diferenciação?

Emily M. Danforth: Fiquei muito grata de ter conhecido Garrard Conley, mesmo que rapidamente, no ano passado – e ter lido seu livro de memórias em que o filme Boy Erased é baseado. É um livro tão honesto, lindamente escrito e o filme é tão importante e poderoso. Embora eu não tenha detalhes sobre a decisão [da Universal], me entristeço com ela ― e fiquei tão ofendida quanto os brasileiros ao ter acesso a algumas declarações que Jair Bolsonaro já deu sobre a populaçãoLGBT. Espero que os brasileiros possam assistir ao filme.

Também não sei muito sobre as particularidades do lançamento de O Mau Exemplo de Cameron Post – mas ele é um filme independente, de estúdios menores. Então meu palpite é que ele talvez não atraia o mesmo nível de atenção. Espero que, se as pessoas tiverem a chance de assistir, o façam. E espero que elas o entendam como um conteúdo elucidativo e verdadeiro.

Você, em algum momento, passou pela chamada “cura gay”, assim como a protagonista? O quanto de sua experiência pessoal está ali?

Eu não fui enviada a um acampamento ou escola que tinha como propósito a “conversão sexual”, assim como aconteceu com Cameron Post. Ela é uma personagem fictícia de um romance, um trabalho de ficção que decididamente não é um livro de memórias. (…) O livro e o filme são muito diferentes.

Um tem 500 páginas e outro apenas uma hora e meia de duração. Essencialmente o filme cobre o que seria a parte final do livro ― em que ela está em sua cidade natal, antes de ser enviada ao “Promessa de Deus” e contém muitas referências da minha própria adolescência: desde locais até acontecimentos.

Eu cresci lésbica em uma área rural, próxima de Montana, no início dos anos 1990. Fui criada em uma casa cristã e frequentei cultos na igreja e também participei de grupos de jovens evangélicos na escola onde estudei. Lembro de ter ouvido comentários depreciativos sobre pessoas LGBTs de meus amigos mais íntimos já naquela época. Me tornei uma pessoa profundamente fechada e com medo (…). Assim mantive silêncio sobre meus sentimentos e identidade.

Ao contrário de Cameron, eu (felizmente) não sou órfã e não fui enviada para o “Promessa de Deus” ou qualquer outro lugar como este. Ao invés disso, fui para a faculdade, onde logo conheci outras pessoas como eu e “saí do armário”.

Fiquei tão ofendida quanto os brasileiros ao ter acesso a algumas declarações que Jair Bolsonaro já deu sobre a população LGBTEmily M. Danforth

HuffPost BrasilCena de jovens em terapia no acampamento “Promessa de Deus”, em “O Mau Exemplo de Cameron Post”.

Você já disse em outras entrevistas que, além de extensa pesquisa sobre o tema, uma das histórias que te inspirou a escrever o livro foi a do jovem Zach Stark que, em 2005, falou abertamente sobre sua experiência em centros de conversão sexual e pautou a imprensa nos EUA. Foi aí que seu interesse pelo tema ganhou fôlego? Você chegou a ouvir outras pessoas?

Sim. Em 2005 eu estava começando a trabalhar no meu livro e a história de Stark, um adolescente que foi enviado para um campo de terapia de conversão no Tennessee, ganhou atenção nacional. Ele postou sobre isso em sua página do Myspace e seus posts foram parar nos jornais. Eu acompanhei a história de perto e sabia que queria pesquisar mais sobre o assunto.  

Mas a história de Cameron Post não é uma ficcionalização da história desse adolescente em particular (como eu já vi algumas reportagens apontarem algumas vezes), mas sua história, sim, ajudou a despertar meu interesse em pesquisar sobre o assunto. Inicialmente, eu olhei principalmente para terapias ligadas a grupos religiosos e como isso se manifestava no início dos anos 1990.

Eu ouvi muitos sobreviventes – o que ressalta, infelizmente, o quão comum a prática ainda é (…). É importante que os leitores entendam que o acampamento “Promessa de Deus” ― que eu retrato no livro ― e suas práticas e políticas, é apenas uma das histórias dos locais que praticam a chamada “terapia de conversão”. Existem literalmente (e vergonhosamente) milhares de outros.

Ainda em 2019 a discussão sobre terapias de conversão sexual se faz presente. Nos EUA, em 41 estados a prática é considerada legal. No Brasil, recentemente um juiz acatou um pedido para aprovar esta tipo de tratamento. Como você vê essa questão? Houve algum progresso?

Os dados mais recentes dos Estados Unidos mostram que praticar a terapia de conversão em menores de idade é agora ilegal em pelo menos 15 estados e também em Washington, DC ― além de outros municípios e estados estarem trabalhando em legislações semelhantes atualmente.

Parte disso também é resultado de filmes e livros como O Mau Exemplo de Cameron Post e Boy Erased e dos muitos sobreviventes das terapias de conversão sexual que estão contando suas histórias. 

Mas, certamente, quando comecei a escrever, em 2005, esperava que não estivéssemos mais discutindo isso em 2019, porque achava que ninguém mais estaria praticando – mas esse não é o caso. De qualquer modo, fico feliz que as pessoas estão prestando atenção e fazendo algo sobre isso.

Eu ouvi muitos sobreviventes – o que ressalta, infelizmente, o quão comum a prática ainda éEmily M. Danforth.

ReproduçãoCena do filme em que Cameron (Chloe Grace Moretz) beija sua namorada.

A relação entre homossexualidade e religião é enfatizada tanto no filme quanto no livro. Atualmente, no Brasil, existem ramificações de religiões cristãs que recebem membros da comunidade LGBT ― e muitas delas são até criadas por eles mesmos, em detrimento da exclusão. Como é nos Estados Unidos? Você avalia que houve algum progresso nessa relação?

Nós ainda temos um longo caminho a percorrer. Mas é inquestionável que houve um progresso social em torno da comunidade LGBT nos Estados Unidos e em outros países pelo mundo, desde a época em que o romance se passa, especificamente entre os anos 1989 e 1994. E tocando mais neste assunto, especificamente: sim, houve progresso também em igrejas cristãs e denominações em detrimento de seu suporte à esta população (…).

Certamente a decisão da Suprema Corte, em 2015, de legalizar o casamento homoafetivo em todo o país ajudou ― pelo menos em termos de haver mais pessoas “não queer” falando sobre o assunto abertamente. E vários líderes religiosos foram influenciados. Eu, pessoalmente, conheço muitos LGBTs que são cristãos e outras pessoas fora da comunidade que apoiam estas pessoas.

Mas o progresso é fragmentado. (…) Ainda há muitas igrejas e lares que não estão de acordo, que essencialmente ainda praticam o cansativo “ame o pecador, odeie o pecado” – o que significa, evidentemente, que eles veem LGBTs como pecaminosos. Tenho algumas dessas pessoas em minha família.

Quero que eles saibam que a experiência deles é válida e plena. E que eles não precisam nunca se desculpar por serem quem são.Emily M. Danforth.

ReproduçãoApós cancelamento de “Boy Erased”, longa protagonizado por Chloe Grace Moretz estreou na última quinta-feira (18) no Brasil.

A jovem Cameron Post, se fosse real, estaria na faixa dos 30 anos agora. O que você gostaria que tivesse acontecido com ela? E o que você diria a garotas que passaram pela mesma experiência? 

Ah, eu amo essa pergunta! Eu tenho esperança de tantas coisas pra ela! Espero que ela tenha continuado a crescer e se desafiar e se surpreender (e se perdoar quando necessário – o que não é tão fácil de fazer). Espero que ela tenha muitos amigos queer, e que entre eles estejam Jane e Adam [outros personagens do livro e do filme]. Eu espero que ela saiba o quão forte ela é – e quando se esquecer disso (porque nós esquecemos), espero que ela se lembre.

Espero que todos os jovens leitores desse romance saibam que eu os vejo – eu sei que eles estão por aí, como eu já estive, procurando por versões deles mesmos, tanto para quem eles são hoje e para quem eles almejam um dia ser. Quero que eles saibam que a experiência deles é válida e plena. E que eles não precisam nunca se desculpar por serem quem são.

Não há nada a “curar” porque ser gay, trans e/ou queer não é uma doença ou um mal-estar. Pensar desta maneira é focar na mentira absoluta de que todas as pessoas deveriam (ou gostariam de) ser hetero e cis. Pessoas LGBT são perfeitas exatamente como são – nossas identidades são reais e válidas.

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