Os perigos de seguir uma dieta igual à das influenciadoras do Instagram

0
7

Lori Jane Anthony, uma das influenciadoras veganas mais conhecidas do Instagram, com mais de 400.000 seguidores, muitas vezes se refere a uma situação de saúde séria de seu passado. Depois de passar o começo da vida adulta comendo porcarias e bebendo muito, ela cortou todos os produtos animais de sua dieta e passou a ingerir apenas frutas, verduras e legumes crus. Segundo Anthony, problemas como candidíase, inchaço, eczema, perda de cabelo e dores pelo corpo foram curados milagrosamente. Hoje em dia, o Instagram dela é uma coleção de fotos coloridas das suas refeições, compostas apenas de vegetais (desde então, ela incorporou algumas preparações cozidas), poses de biquíni com seus 2 filhos e receitas de smoothies de superalimentos.

“Digamos apenas que o ensaio da foto de capa foi bem! Mas esse look precisou de ajuda. Brilho natural e felicidade por @ ‘dieta e estilo de vida saudável’ hehe, paixão por uma saúde ótima @ self, cor do cabelo @ genes da família e @oscaroscarsalons, sobrancelhas e cílios @ óleo de castor todos os dias, luz excepcional @goldcoaststudio @matty_mac, meu amor e meus filhos por serem os melhores do mundo, glam @ashleapenfold, amiga @annie_om, fotógrafo e suas garotas @oh.so.mellow @lisadanielle_ @emelinaah. Não tenho palavras para descrever minha empolgação para que o livro saia logo!!! Ahhhhh!”

Anthony, que não respondeu aos pedidos de entrevista do HuffPost, é uma figura central no movimento de bem-estar que está tomando conta do Instagram – e gerando polêmica. Ela foi criticada pelos tabloides australianos por manter a alimentação vegana durante a gravidez e por dar basicamente frutas e vegetais para o filho. Um artigo do Daily Mail se referiu a ela desdenhosamente como “mamãe blogueira” (ela escreveu 2 livros de receita) e entrevistou médicos que disseram que algumas das afirmações de Anthony a respeito de saúde são “puro lixo”.

View this post on Instagram

More about gluten /overly processed food and what it does to me – THIS PHOTO IS 3 DAYS APART! The left photo is a result of 4 days eating ‘normal’ gluten (vegan) foods and the right photo is 3 days after stopping the foods and detoxing. I did this test on myself for 4 days of eating ‘normal’ gluten containing vegan foods. I ate wheat bread, mock-meats, cereals, pasta, vegemite, regular peanut butter, regular tomato sauce, which all contain some type of gluten. I also switched my Celtic seas salt (which contains 83 minerals) to table salt (2 concentrated minerals) and regular tap water instead of filtered. This was the result after 4 DAYS! I was in physical pain from my body aching all over, the bloating and because my clothes were so tight from the added water retention and inflammation of my ceIls, I slept terribly (woke up what felt like all night long during this test, gluten is a potential neurotoxin), I ended up with perioral dermatitis around my chin and nose area (which il share in the next post) and my mind was very depressed. Feeling this way reminded me of how I used to feel before I transitioned to a healthy lifestyle, that constant ache. I felt server lack of motivation. I also craved more and more of these foods the more I ate them, even when I was eating a current meal I was thinking about what was next! and I didn’t want or feel like fresh produce like salads and fruit- AT ALL. Which was really disturbing. For me, gluten/ overly processed food takes over my mind and body. This is why I choose to eat the way I do now. It is not worth it for me to go back to that way of eating and now you can see why. x

A post shared by Loni Jane (@lonijane) on

Mais sobre o glúten e comidas superprocessadas e o que eles fazem comigo – ESSAS FOTOS FORAM TIRADAS COM TRÊS DIAS DE DIFERENÇA! A foto da esquerda é resultado de 4 dias comendo alimentos com glúten ‘normal’ (veganos) e a da direita é três dias depois de parar com esse tipo de comida e fazendo um detox. Fiz um teste de quatro dias, comendo pão branco, “carnes” vegetais, cereais, macarrão, vegemite, pasta de amendoim, molho de tomate, tudo contém algum tipo de glúten. Também troquei meu sal marinho celta (que contém 83 minerais) pelo sal de mesa (2 minerais concentrados) e água da torneira, em vez de água filtrada. Este foi o resultado depois de 4 DIAS! Estava com dores em todo o corpo, inchada e retendo água, com as células inflamadas. Dormi muito mal (acordava o tempo todo à noite durante o teste, o glúten é potencialmente uma neurotoxina), tive dermatite no queixo e no nariz (que vou mostrar no próximo post) e me senti muito deprimida. Essa dor constante me lembrou como eu me sentia antes de fazer a transição para um estilo de vida saudável. Senti muita falta de motivação. Também tive muita vontade de continuar comendo essas comidas. Quando estava comendo, já pensava na próxima refeição. Não tive vontade de comer saladas ou vegetais frescos – ZERO. Foi perturbador. Para mim, glúten/alimentos superprocessados tomam conta da minha mente e do meu corpo. É por isso que minha alimentação é assim hoje. Não vale a pena voltar a ser como antes, e você está vendo por quê.”

Anthony não é a primeira influenciadora a ser atacada. Essena O’Neill, chamada pelo The Cut de “modelo australiana, estrela do Instagram e entusiasta do estilo de vida vegano” deletou abruptamente suas contas nas redes sociais em 2015, depois de afirmar que as plataformas a deixavam “perdida” e “doente”. Ella Woodward, do Deliciously Ella, condenou a expressão “alimentação limpa” depois de ser criticada por declarações em relação a dietas que poderiam levar a transtornos alimentares.

Tendências que proliferam no Instagram agora estão sendo desmistificadas (mais recentemente o suco de aipo). A preocupação é que esse foco em uma “alimentação limpa”, como a proposta pela conta de Anthony, significa não só recomendações de comer mais frutas e legumes – ele também poderia contribuir para transtornos alimentares como ortorexia (que não é reconhecida pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e disseminar afirmações duvidosas, que não foram examinadas por médicos.

A gordofobia é a última forma de discriminação socialmente aceitável. [As tendências de bem-estar] na realidade se baseiam nessas estruturas sociais que têm de ser denunciadas.Kristi Hall, terapeuta de casais e famílias especializada em transtornos alimentares

Será que é legítimo esse medo de que as redes sociais representem um filtro maligno através do qual as mulheres, em particular, enxergam seus corpos? Dentro da comunidade do bem-estar do Instagram, a história é muito diferente. Algumas das figuras centrais desse movimento afirmam que só apresentam dietas ou estilos de vida que funcionam para elas e jamais pressionam os seguidores a fazer escolhas que possam trazer problemas de saúde.

“Não faço pregação, não julgo, não sou extremista, mas tenho formação. Tenho diploma em nutrição e dietética”, diz por email ao HuffPost Ellie Bullen, a nutricionista por trás do Elsa’s Wholesome Life. “Minha mensagem é simples: coma mais plantas.”

Charlotte Markey, psicóloga e fundadora do Centro de Ciências de Saúde da Universidade Rutgers, que estuda os efeitos das redes sociais na imagem corporal, diz que Bullen é exceção. A maioria dos influenciadores de saúde e bem-estar do Instagram não têm formação médica.

“A maioria é gente bonita (e que parece saber disso) que acha que encontrou o cálice sagrado da saúde e da perda de peso”, diz Markey. “É por isso que fazemos pesquisas sobre esse negócio. Centenas, milhares de pessoas participam desses estudos. O que os pesquisadores aprendem com essas pesquisas provavelmente vai ser mais útil que as recomendações de um guru do Instagram.”

Alguns influenciadores nem sequer seguem o estilo de vida que promovem no Instagram e no YouTube. A youtuber celebridade Rawvana foi flagrada comendo peixe. Bonny Rebecca, outra youtuber vegana famosa, recentemente revelou para os seguidores que teve de abandonar a dieta vegana porque ela e o namorado tinham desenvolvido problemas de saúde sérios.

“Dicas de saúde da Elsa 

Eis algumas das minhas maneiras favoritas de me manter saudável. Se tiver alguma dica, compartilhe abaixo. Adoraria saber!!

. tenha só comidas saudáveis na despensa e na geladeira

. prepare refeições e petiscos saudáveis para ter o que comer quando bater aquela fome (sucos verdes, sopa, homus ou restos de refeições)

. hidrate-se o dia inteiro. Às vezes parece fome, mas na verdade é sede. Tome um copo d’água antes de procurar comida.

. planeje as refeições da semana – é a melhor maneira de comprar tudo o que for necessário no supermercado para a semana. Pense em receitas que usem o mesmo ingrediente.

. faça listas de compras – assim você não ficar perdida pelos corredores do supermercado e acaba na seção de chocolates, se convencendo de que precisa daquela barra de chocolate – evite essa seção!

. se possível, comece o dia fazendo exercícios. Apenas 30 minutos por dia já fazem bem para a saúde.

. água em primeiro lugar! Sempre prefira água a outras bebidas. Se não gosta de água, esprema um pouquinho de limão. Adoro água com gás gelada. É 100% sem açúcar e acho que mata a sede – uma ótima alternativa aos refrigerantes.”

Carlie McKibben, responsável pela conta Plantifully Nourished, adotou o estilo de vida vegano quando se recuperava de um transtorno alimentar. Ela reconhece que a questão é muito mais complicada que simplesmente recomendar comer mais plantas. Ela enfatiza que sua mensagem não é “meu estilo é o mais saudável” e que ela não quer ser uma influência “negativa ou estressante” na vida dos seguidores. Mas ela encontrou pessoas no Instagram que acham que uma dieta vegana vai automaticamente resultar num “corpo dos sonhos”. Ela afirma que a dieta à base de plantas pode virar uma obsessão perigosa.

“Ficava mal ao ver certas contas que postavam ‘o que eu comi hoje’, mostrando só frutas e vegetais, em pequenas quantidades”, diz McKibben. “Muitas meninas que nem sequer entendem a ciência e a ética por trás de uma dieta à base de plantas decidem comer assim por causa das influenciadoras. Isso é um problema.”

Especialistas em imagem corporal afirmam que, talvez involuntariamente, muitas dessas influenciadoras fazem as mulheres se sentirem envergonhadas e culpadas por sua alimentação.

“A cultura de saúde e bem-estar do Instagram é danosa porque se baseia no medo. A mensagem é: ‘se você não comer de uma certa maneira, vai ficar com a pele ruim ou ter um corpo feio’”, diz Kristi Hall, terapeuta de casais e famílias especializada em transtornos alimentares. “É uma ideia que se disfarça de saúde e bem-estar, quando na verdade é a mesma mensagem de sempre: menor é mais saudável.” 

As influenciadoras não estão fazendo afirmações que necessariamente causem problemas físicos nas pessoas (suco de aipo, no final das contas, é saudável). Mas elas roubam das pessoas a autonomia de tomar decisões a respeito do próprio corpo, diz Hall. Ela pede cuidado com as contas de Instagram que — intencionalmente ou não — te pressionam a mudar seu estilo de vida ou a ignorar seus instintos. Em geral, isso não é sustentável – e pode ter consequências para sua saúde mental também.

[A cultura do bem-estar no Instagram] se disfarça de saúde e bem-estar, quando na verdade é a mesma mensagem de sempre: menor é mais saudável.Hall

“Acaba virando uma questão moral, de alimentação ‘certa’, que pergunta: ‘Você é disciplinado? Você é uma boa pessoa?’ O Instagram contribui com isso”, afirma ela.

Os influenciadores podem acreditar que estão falando apenas por si mesmos em suas contas, mas não é tão simples. “Pode parecer sua jornada pessoal, mas na realidade é uma questão de justiça social”, diz Hall. “A gordofobia é a última forma de discriminação socialmente aceitável. [As tendências de bem-estar] na realidade se baseiam nessas estruturas sociais que têm de ser denunciadas.”

Se os influenciadores vieram para ficar, Markey diz que eles têm de ser “mais responsáveis”, por exemplo incluindo links para estudos que sustentem suas afirmações – dos benefícios do jejum às vantagens de comer sementes de chia. Mas até mesmo essa solução simples pode não ser suficiente. Hall observa que há tanta ciência de má qualidade na internet, que praticamente qualquer afirmação pode ser “comprovada” com estudos.

Por mais cuidadosas que sejam as celebridades do mundo do bem-estar no Instagram, não há como fugir da reprovação pública. Markey diz que esse movimento, basicamente composto por mulheres, surgiu em parte graças à “crença enraizada de que tem algo errado com as mulheres se elas não se preocuparem com sua aparência”. Ela também afirma que é errado considerar essas mulheres “superficiais” e que temos de levar em conta que elas respondem a pressão social intensa.

Muitas das mulheres por trás dessas contas são bem-intencionadas e querem divulgar informações que genuinamente acreditam que possam mudar para melhor a vida dos seguidores. Mas a cultura dos regimes, que existe desde muito antes da invenção do Instagram, sempre puniu as mulheres por serem magras demais, ou por não serem magras o bastante, por não se preocuparem com sua aparência, ou por não se preocuparem o bastante.

A tendência do bem-estar no Instagram pode beneficiar algumas poucas mulheres que viraram celebridades na plataforma. Mas, para a maioria das outras, as redes sociais só reforçam as mesmas expectativas injustas de sempre – que, no fim das contas, minam a autoestima, em vez de contribuir para uma saúde melhor.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui