‘Órfãos da Terra’: Os bastidores do campo de refugiados construído para a novela

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Globo/Paulo BeloteCampo de refugiados cenográfico foi erguido em Santa Cruz, zona oeste do Rio.

Os primeiros capítulos de Órfãos da Terra, nova novela da Globo, terá um campo de refugiados como pano de fundo para contar o início da intrincada história de amor entre os personagens Laila Faiek (Julia Dalavia) e Jamil Zarif (Renato Góes).

Na trama escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes, o local — que abriga dezenas de famílias expulsas de seus lares pela guerra — fica em Beirute, capital do Líbano. Ao observar as imagens da região árida na TV, é mesmo mais fácil acreditar que trata-se de um local situado no Oriente Médio do que em pleno Rio de Janeiro.

Foi no bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, que a equipe de produção da emissora decidiu montar do zero o campo cenográfico. “Queríamos um cenário realista, mas como ele fica pouco tempo na novela, um alto investimento de produção seria um contrassenso”, revela o diretor artístico do folhetim, Gustavo Fernández.

Para atender a demanda, a emissora firmou uma parceria com o Acnur, Agência da ONU para Refugiados, que forneceu as orientações técnicas, 42 tendas (cada uma com capacidade para 6 pessoas), equipamentos de visibilidade para os figurantes, entre outros itens que uma instalação real para refugiados contém.

Globo/Paulo BeloteApós bombardeio de sua casa na fictícia cidade de Fardús, na Síria, Laila Faiek (Julia Dalavia) vai parar com sua família em um campo de refugiados.

“Tivemos uma relação de cooperação técnica, de informações e de trocas de dados”, conta Miguel Pachioni, porta-voz do Acnur no Brasil. “As autoras da novela acataram nossas recomendações, o que vai imprimir um senso muito mais real à trama.”

Ele explica que a estrutura de um campo de refugiados, como o retratado na novela, tem como primeiro objetivo garantir a segurança das pessoas. É importante que elas estejam livres de intervenções de Forças Armadas, de conflitos étnicos ou de cunho religioso.

Além de abrigo, um campo do Acnur oferece também atendimento médico e nutricional, acompanhamento psicossocial, alimentos e artefatos de cozinha.

“Olhamos para autossuficiência dessas pessoas. Não há distribuição de alimentação pronta, mas sim utensílios para que elas, respeitando suas tradições, suas culturas, possam preparar aquele prato ao qual estão habituadas no dia a dia”, diz.  

Globo/Paulo BeloteO ator Marco Ricca vive interpreta Elias, o pai da mocinha de ‘Órfãos da Terra’

De acordo com o último relatório anual Tendências Globais, divulgado pelo Acnur em junho do ano passado, 68,5 milhões de pessoas estavam deslocadas por guerras e conflitos até o final de 2017.

“A cada 2 segundos uma pessoa se torna refugiada no mundo, e a maioria dos refugiados no mundo são crianças”, complementa Pachioni.

Ele explica que, nesse contexto provocado por aumento de conflitos, as estruturas de campos de refugiados inicialmente construídas para serem temporárias acabam perdurando por anos como residência dessas populações.

“Podemos citar a Síria, por exemplo, um país que entrou em seu oitavo ano de conflito em março passado. Quem diria que aquele cenário de 2011 permaneceria igual até hoje?”, questiona. 

Pachioni pontua que no Brasil não há campo de refugiados como o que será retratado na novela. “A gente chama o contexto no norte do Brasil de abrigamento e não de campo”, explica, referindo-se à estrutura de apoio aos venezuelanos que têm buscado ajuda na fronteira com Roraima.

“O campo, como a gente nota aqui, é um cenário completamente isolado, de difícil acesso ao contexto urbano. Isso não acontece lá na cidade de Boa Vista, onde as pessoas têm trânsito livre para acessarem o comércio e trabalharem.”

Paulo BeloteRefugiado, ex-BBB Kaysar interpreta Fauze, capanga do sheik Aziz Abdallah (Herson Capri).

O porta-voz do Acnur vê com otimismo a questão dos refugiados na novela das 18h da Globo. “Creio que ela vem agregar em termos de informação para um público ao qual a gente ainda não comunica de uma forma tão clara e abrangente. A novela vem desmistificar, tornar o tema mais popular”, acredita.

Ele conta que há uma ideia recorrente entre as pessoas refugiadas com quem conversa e que ele gostaria que a novela transmitisse aos telespectadores: “refugiado é uma pessoa como qualquer outra”, diz.

Para ele, a onda de xenofobia que cresceu no Brasil nos últimos anos é reflexo da falta de informação”. “Acredito que aí, novamente, a novela tem um papel fundamental de fazer que o público geral possa conhecer quais são os motivos que fazem uma pessoa se tornar refugiada”, acredita.

“Ninguém quer se tornar refugiado. Não se trata de uma opção, de uma escolha. É a única restante para que ela possa ter seus direitos preservados”, continua.

“O lado social da novela é fundamental também para fazer com que o telespectador conheça quais são as causas, consequências e potencialidades dessas pessoas que são refugiadas. A grande mensagem é que elas têm muito a contribuir para a nossa formação enquanto sociedade plural.”

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