Os momentos históricos negros que vão influenciar 2019 nos Estados Unidos

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Graphic by: Isabella Carapella

O HuffPost US fez uma lista sobre momentos e figuras da história negra americana cuja influência foi sentida e será evidenciada ao longo deste ano. Entre os citados estão pessoas cuja ousadia, sucesso, importância ou alguma combinação dessas três coisas os converteu em figuras cujo impacto ainda é sentido hoje. 

Hattie McDaniel

Bettmann via Getty ImagesHattie McDaniel segura seu Oscar depois de receber o troféu de melhor atriz coadjuvante pelo papel de “Mammy” em E o Vento Levou.

Em 1940, quando Hattie McDaniel tornou-se a primeira pessoa negra a receber um Oscar da Academia – por seu papel em E o Vento Levou ―, sua vitória não foi festejada com unanimidade entre os negros. Ela, que até então tinha feito carreira representando papéis de empregadas domésticas no cinema, foi fortemente criticada pela NAACP (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor) e pessoas negras de pensamento semelhante, para os quais sua personagem, “Mammy”, havia rebaixado os negros, pelo fato de enquadrar-se em estereótipos.

Eles também rejeitaram o fato de McDaniel ter recebido um Oscar por um filme visto como sendo favorável à Confederação (Estados Confederados da América, o Sul escravista dos EUA no século 19). Mas hoje, passados anos e levando em conta a relutância que a indústria do cinema teve por anos em apresentar novas narrativas negras, McDaniel é valorizada como figura histórica negra que rompeu com a hegemonia branca absoluta no Oscar, tendo passado por muita humilhação nesse processo.

Teoricamente, os quase cem anos passados desde sua vitória deveriam ter trazido ao cinema personagens negros novos, progressistas e interessantes, além de novas tramas e narrativas persuasivas. Isso tem acontecido em alguns momentos. Em outros, nem tanto. Nossas discussões sobre a participação de atores negros no cinema, o reconhecimento que recebem e por que o recebem foram precipitadas por Hattie McDaniel. No momento em que essas discussões continuam a ser travadas, a história dela deveria estar na cabeça de todos.

Tommie Smith e John Carlos

NCAA Photos via Getty ImagesTommie Smith e John Carlos erguem seus punhos para protestar contra o racismo americano durante os Jogos Olímpicos de 1968.

Tommie Smith e John Carlos viraram párias globais quando ergueram seus punhos em um gesto de protesto silencioso durante as Olimpíadas de 1968. Usando luvas pretas, eles subiram ao pódio depois de ficar respectivamente em primeiro e terceiro lugar na corrida de 200 metros rasos e ergueram os punhos ao céu, demonstrando solidariedade com os negros vítimas de racismo nos Estados Unidos. Os dois foram expulsos da Vila Olímpica, o diretor do Comitê Olímpico Internacional denunciou seu ato como “intencional e violento” e eles receberam ameaças de morte quando voltaram aos Estados Unidos.

Mas, como foi o caso dos ícones do movimento pelos direitos civis Martin Luther King Jr e Muhammad Ali, Tomme Smith e John Carlos foram ganhando mais aprovação pública com o passar do tempo. Hoje a história deles é tema de reportagens elogiosas e de reconhecimento público, acompanhando as transformações da sociedade.

Essa trajetória é um exemplo para os nossos tempos. Quando atletas estão erguendo suas vozes para criticar a desigualdade e enfrentando possíveis represálias por isso. Será fascinante observar como muitas pessoas que hoje criticam esses atletas vão rever sua posição quando forem perguntados sobre isso futuramente.

Fórum negro no Congresso americano

PhotoQuest via Getty ImagesMembros do Caucus Negro do Congresso, em 1971.

O Comitê Seleto Democrata – ou seja, o grupo de deputados negros na Câmara que acabaria ficando conhecido como o Caucus Negro do Congresso – foi formado 50 anos atrás, em 1969. Esse grupo de deputados negros incluiu nomes como Shirley Chisholm e o membro-fundador William Clay, que declarou em frase memorável “os negros não têm inimigos permanentes, não têm amigos permanentes … apenas interesses permanentes”.

Nos 50 anos passados desde então, o Caucus Negro do Congresso, um tipo de fórum, funcionou e ainda funciona como grupo não partidário através do qual deputados e senadores negros podem promover políticas voltadas a seus eleitores negros.

Na prática, o caucus inicia parlamentares negros nas operações cotidianas da Câmara e do Senado, e, ao mesmo tempo, ajuda alguns deles a elevar sua estatura. De John Lewis a Maxine Walters e Barack Obama (que participou do caucus como senador), o Caucus Negro do Congresso é o grande responsável por proporcionar uma plataforma a parlamentares que, de outro modo, teriam dificuldade em se destacar em um Congresso predominantemente branco.

Deputada Barbara Jordan (democrata do Texas) 

Keystone via Getty ImagesBarbara Jordan prepara-se para depor no processo de impeachment do presidente Richard Nixon em 1974.

Em 1972 Barbara Jordan tornou-se a primeira mulher negra do Sul do país a ser eleita para a Câmara dos Deputados. Morta em 1996, Jordan possuía uma voz titânica – da maneira mais literal. Seu timbre era forte, profundo e retumbante. Dois anos depois de chegar à Câmara, Jordan usaria essa voz para proferir o discurso possivelmente mais memorável e condenatório de todo o processo de impeachment de Richard Nixon.

Ela argumentou que, se as ações de Nixon não desafiavam a Constituição e não mereciam ser punidas com impeachment, “talvez essa Constituição redigida no século 18 deva ser relegada a um picador de papel do século 20”.

Seu discurso de 13 minutos marcou a primeira ocasião em que uma mulher negra falaria verdades como essas ao poder a partir do pódio do Comitê do Judiciário da Câmara, e suas palavras de impacto ajudaram a precipitar a renúncia de Nixon, meses mais tarde.

As semelhanças entre 1972 e hoje são evidentes. Hoje a América está mais uma vez mergulhada em uma crise constitucional que envolve o presidente. E várias mulheres não brancas estão escolhendo falar francamente e seriamente sobre a situação caótica em que nos encontramos. Barbara Jordan é a prova de que essas mulheres, ao mesmo tempo em que forjam seus próprios caminhos, também estão se inspirando numa história fértil de vozes que se manifestaram sem medo.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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