O culpado de Suzano

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ASSOCIATED PRESSMassacre cometido por 2 ex-alunos na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), deixou 10 mortos e 10 feridos na última quarta-feira.

Nós sempre queremos achar um culpado. Pode ser até que seja por uma questão de desforrar raiva, uma questão de vingança. Mas acredito que, neste caso, seja predominantemente por medo.

Achar uma explicação para o fato, aplacar a angústia do desconhecido, do errático, do ilógico. E, em nossas cabeças, prevenir futuras irrupções de irracionalidade. Diminuir em nossa fantasia a quantidade de imponderável que está por vir e sentirmo-nos mais calmos com o futuro.

Nestes exercícios de explicação do absurdo, a doença mental frequentemente surge como algoz – principalmente em fatos como o ocorrido nesta semana em Suzano.

Motivo que pode explicar o caso particular, mas que não se sustenta como fator preditor. Isso já dizem os estudos epidemiológicos. Não é da natureza genuína da doença mental o homicídio. Os transtornos de maior prevalência na população não se relacionam à violência. Se assim o fosse, teríamos mais manicômios judiciários do que cadeias comuns.

Se tecnicamente não serve para explicar, para antever, para ações de prevenção, então por que culpar a doença mental? Trata-se de um exercício de desresponsabilização coletiva. Separação. Exclusão.

Os portadores de doença mental são o “eles”, o estrangeiro de Camus, o alienado de Foucault. Epítome do caos, do imprevisível, da loucura, do medo. Enquanto que “nós” somos a antítese segura e racional disso tudo. A alegação da doença mental nos traz a segurança de que não é no nosso quintal.

Caso assim o fosse, teríamos que mexer em coisas delicadas. Lavar a roupa suja. Olhar a violência que permeia as nossas relações do dia-a-dia, a indiferença dos pseudolaços sociais, a individualidade e a competição, a ganância, a perversão, a formação de nossas crianças, a formação do indivíduo na sociedade.

Refletirmos sobre a nossa doença, a doença que está, sim, acontecendo em nosso quintal. Sobretudo na cola social que nos une, uma cola que pode até juntar, mas corrói suas superfícies.

Independentemente se há, no caso, doença mental ou não, não é a primeira vez que isso acontece. Não é um caso isolado. A doença mental até poderia explicar um caso isolado. Mas todos? E é isso que deve nos intrigar.

Não obstante, é difícil mexer neste vespeiro. Mais fácil é acreditar na loucura alheia. Dá menos trabalho.

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