As consequências de um feminicídio na família da vítima estão em ‘Elegia de um Crime’

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DivulgaçãoIsabel Burlan da Silva com sua filha, Kelly.

“Não é apenas um filme sobre feminicídio, é um filme sobre um filho que busca a imagem de sua mãe, que desapareceu”, diz o diretor Cristiano Burlan sobre Elegia de um Crime, documentário que começou nesta quinta (14), por São Paulo, sua caminhada pelas salas de cinema do País.

Vencedor dos prêmios ABD-SP (Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas), EDT (Associação dos Profissionais de Edição Audiovisual) e do 23º Festival É Tudo Verdade, Elegia de um Crime encerra a “trilogia do luto” realizada pelo cineasta em sessões exclusivas do Cinesesc.

Após relembrar a morte do pai em Construção (2006) e o assassinato do irmão em Mataram Meu Irmão (2013), em Elegia de um Crime, Burlan investiga o feminicídio de sua mãe, Isabel Burlan da Silva, assassinada em 2011, por seu companheiro à época. O crime, que aconteceu em Uberlândia (MG), segue sem conclusão. O agressor, Jurandir Muniz de Alcântara, segue foragido.

O filme é uma tentativa do próprio cineasta em reconstruir a imagem de sua mãe por meio dos depoimentos colhidos de familiares e amigos, mas também como uma forma de tentar localizar o assassino e denunciar um dos crimes que mais acontecem no Brasil.

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De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 foram registrados 221.238 casos de violência doméstica, ou 606 por dia. Foram contabilizados 1.133 feminicídios – quando a mulher é morta pelo fato de ser mulher -, além de 4.539 homicídios femininos.     

O cineasta, gaúcho de 43 anos e criado na região do Capão Redondo, em São Paulo, conversou com o HuffPost Brasil e conta como a violência causou, e ainda causa, impactos em sua vida e em sua arte.

O luto age de maneiras muito diferentes em cada um. Para mim, a imagem da minha mãe desapareceu.

DivulgaçãoCristiano Burlan, diretor do documentário Elegia de um Crime.

HuffPost Brasil : O filme trata de um feminicídio, um assunto muito discutido atualmente no Brasil, mas você não discute essa questão de uma forma geral no documentário. Você traz uma visão mais intimista da questão. Qual foi a sua intenção ao filmar Elegia de um Crime?

Cristiano Burlan: É claro que o filme é sobre feminicídio também, mas não só sobre isso. Seria muito oportunista da minha parte levantar a bandeira para divulgar o filme em cima disso, que é uma questão muito discutida atualmente no Brasil. Muito atual. Os números de feminicídios no Brasil são absurdos.

Mas o filme não é apenas sobre feminicídio, é sobre um filho que passa por um luto muito forte. E o luto age de maneiras muito diferentes em cada um. Para mim, a imagem da minha mãe desapareceu. A última imagem em que ela aparece no filme está borrada exatamente por isso. Eu não consigo ver mais o rosto da minha mãe. Se no Mataram o meu Irmão, eu vou atrás do corpo do Rafael [irmão de Cristiano], dos ossos dele, aqui é a tentativa de um filho de reconstruir essa imagem. E é o meu ofício. O que eu escolhi para minha vida foi fazer filmes. Então, nada mais óbvio que tentar entender as coisas que estão à minha volta por uma perspectiva cinematográfica.

O que eu mostro no filme é muito pouco da violência que há no dia a dia da periferia no Brasil. Essa violência contra a mulher está presente na minha vida toda. Desde criança vi tios, primos sendo violentos com as mulheres da família. Algumas conseguem fugir dessa realidade violenta, mas a minha mãe não conseguiu.

Intuitivamente eu sabia que essas coisas estavam acontecendo com ela. Eu perguntava sobre isso para ela, mas ela não falava nada. Mas eu sabia que o cara que matou ela tinha um temperamento muito violento, e se é uma coisa que eu reconheço desses ambientes extremamente machistas que eu convivi é esse temperamento violento masculino. Porque isso fazia parte do dia a dia da minha família e eu sabia que ele tinha isso.

E você atingiu seu objetivo inicial?
Acho que pela primeira vez na minha vida eu não fui até o fim. Poderia ter feito um filme mais sofisticado esteticamente, mas eu não poderia estetizar algo que é tão caro para mim como a morte da minha mãe. Poderia ter feito uma linguagem para os festivais europeus, porque vejo muitos filmes em festivais por aí, eu sei o que eles esperam da gente, mas ir por esse caminho pode ser a morte para um realizador. Mas, realmente, eu não consegui ir mais longe mesmo.

Posso dizer que talvez eu não tenha terminado o filme, eu parei de fazer. Às vezes sinto como se fosse um filme que eu não dei conta. O que eu sinto como realizador é que eu cheguei à arrebentação, mas não atravessei as ondas. Quando você faz um filme, você paga um preço muito alto, e a grande questão é se você está preparado para pagar esse preço, porque é um caminho sem volta.

Mas não é um filme sobre morte. É um filme sobre o amor de um filho por uma mãe. Eu gostaria muito de não ter precisado fazer esse filme, mas eu estou aqui, sou quem eu sou, muito por conta dela.

Em Elegia de um Crime você aparece bem mais na tela do que em Mataram o meu Irmão. No seu filme anterior seu rosto aparece mesmo apenas na última cena. Por que dessa vez você aparece mais?
O [Eduardo] Escorel fez uma crítica sobre isso no Mataram o meu Irmão. E eu achei muito interessante o que ele falou. Ele disse que o filme poderia ter sido mais potente se eu não tivesse sido tão covarde. Na época eu não recebi bem o comentário, mas depois me senti lisonjeado. O cara é um dos maiores montadores do cinema brasileiro. Se um cara que montou Cabra Marcado Para Morrer e Terra em Transe faz uma análise crítica do seu filme, você tem mais é que se sentir lisonjeado mesmo. Quando fui fazer Elegia de um Crime essa frase não saía da minha cabeça. Foi algo que me fez pensar. Se eu estou expondo minha família, meus irmãos, eu tinha de me colocar no mesmo lugar.

Sempre tive contato com arma desde pequeno na minha família, mas é um objeto que eu nunca gostei.

DivulgaçãoIsabel Burlan da Silva com três de seus cinco filhos.

Uma cena que achei bem interessante é quando você está atirando em um estande de tiro. Parece que você está com muita raiva, mas que está nervoso por aquilo não fazer parte da sua realidade, do seu ambiente. Como se estivesse lutando contra um instinto de vingança mesmo fora do seu elemento. Era isso que você queria passar com aquela cena?
Eu tive treinamento militar. Eu servi na Legião Estrangeira na França. Mas ali eu estava muito nervoso mesmo. Porque mesmo tendo nascido no meio da violência, cometido alguns delitos antes dos 18 anos e ser muito próximo desse mundo violento, eu tenho paúra de arma de fogo. Para mim é um objeto abjeto. Não me cai bem. Eu sei atirar. Sempre tive contato com arma desde pequeno na minha família, mas é um objeto que eu nunca gostei. Algumas pessoas acham que eu não deveria ter colocado aquela cena ali, mas a arma é um objeto que faz parte da minha própria história. Essa máquina que você usa apenas para tirar a vida. Mas o ambiente do clube de tiro é muito pesado. 

Essa cena pode servir como um contraste a uma fala sua, de que você não busca a vingança ― como talvez seu pai ou seu irmão fariam? Sua arma não é a câmera?
Sim, tem isso também. Há uma diferença entre vingança e justiça. As pessoas podem receber o filme como uma tentativa de vingança, mas para mim é uma busca por justiça. Eu tinha duas opções. Quando filmei Mataram meu Irmão eu quase fui por esse caminho. Quase matei alguém para vingar a morte do meu irmão, mas eu descobri que não sou assim. Por isso falo na cena final que se fosse meu pai ou meu irmão no meu lugar, eles certamente iriam atrás desse cara para matá-lo. Eu não consigo fazer isso.

Por que você acabou não seguindo o caminho dos seus irmãos?  
O Freud dizia que ‘a consciência da doença é um caminho para a cura, mesmo que ela não exista’. Desde muito cedo eu descobri a minha doença e tento lutar com isso. A morte se impregnou nos homens da minha família de tal forma que todos acabam morrendo, de certa forma, de algum jeito trágico, e, às vezes, eu tenho a sensação de que esse pode ser o meu destino também.

É claro que o contato com a literatura, o cinema e com o circo muito jovem foi me dando uma perspectiva maior do mundo. Mas isso é uma covardia, porque eu tive que sair desse ciclo de violência e pobreza porque isso entra dentro de você. É uma coisa que te puxa.

Meus irmãos me ligam, eu mando dinheiro, ajudo como posso, mas o contato que tenho com eles é muito pouco. É uma fraqueza minha, sim, mas isso é humano. Porque quando você entra dentro desse círculo de violência e pobreza é muito difícil sair dele. Meu olhar é distante. O cinema, a literatura e o teatro, que foi onde eu comecei a me encontrar, me deram ferramentas para me libertar desse ciclo de violência.

Esse “distanciamento” fica claro quando você fala com seus irmãos e até com sua irmã. Toda vez que você encontra com ela no filme, a impressão que fica é que fazia muito tempo que você não ia na casa dela, que não falava com ela.
É isso mesmo. Me sinto até “escroto” indo lá só para falar dos mortos e depois raramente eu volto. Desde que minha mãe morreu eu não passava o Natal em Uberlândia, mas agora em 2018 eu fui. Mas foi muito difícil para mim. Mas eu não fiquei na casa dela, fiquei em um hotel porque não tenho coragem de ficar lá. Tenho coragem para ir lá com a câmera, mas sem ela eu não tenho. A câmera é até uma maneira de me proteger das coisas. A lente acaba sendo um filtro para aquela realidade. Mas fico pensando se fiz aquilo porque sou uma pessoa boa ou se fiz por culpa de ter uma vida mais confortável que eles. Não sou ingênuo quanto a isso, a relação com meus familiares ainda é estranha para mim.

Essa violência contra a mulher está presente na minha vida toda. Desde criança vi tios, primos sendo violentos com as mulheres da família.

DivulgaçãoIsabel Burlan da Silva foi vítima de feminicídio em 2011.

O filme mostra você tentando alertar a polícia com informações importantes sobre o paradeiro do assassino da sua mãe e o que fica é que a polícia parece não estar nem um pouco interessada nisso.
Da experiência que eu tive, tanto do meu irmão quanto da minha mãe, se você é pobre nesse País, você tá fodido. No caso do meu irmão, um dos assassinos foi preso. Era uma quadrilha comandada por um policial militar que até já foi morto. O cara que foi preso foi quem organizou a execução do meu irmão, mas quem deu sete tiros nele, pelas costas, saiu ileso.

Esses bolsões de pobreza espalhados pelo País são terra de ninguém. São lugares que o Estado não entra. Quem comanda esses lugares são poderes paralelos. E pior: na época do assassinato do meu irmão, no Capão, esse poder paralelo não era organizado. Hoje é. Se a mulher não tem o acolhimento que precisa em uma delegacia da mulher, imagine uma mulher entrando em uma delegacia comum. Se uma mulher vai a uma delegacia depois de ser agredida, normalmente os policiais partem do pressuposto de que ela é culpada por ter sido agredida. Isso é assustador.

Um personagem do seu filme que eu achei interessante é a jornalista, que é uma típica repórter de programa policial. Por que você a procurou?
Fui fazer uma análise crítica do trabalho dela, com a intenção de acusá-la por ter exposto a minha mãe morta, mas acabei fazendo uma análise crítica de mim mesmo, do meu trabalho, porque eu também fiz filmes sobre assassinatos. Qual é a diferença entre eu e ela? Mas ela foi muito gentil comigo e foi muito sincera. Nunca imaginei que ela fosse responder o que ela respondeu para mim. Eu fui muito direto. Questionei o porquê dela ter mostrado minha mãe daquele jeito e ela simplesmente respondeu: ‘Porque é isso que as pessoas querem ver’.

E na cabeça dela, aquele tipo de matéria é uma maneira dela de ajudar a resolver os crimes, o que pra mim é algo assustador. Foi muito tenso. Foi difícil filmar ali por questões técnicas. Aquela cena quase não aconteceu, mas ela queria muito falar comigo. Aquela matéria mostrando o rosto da minha mãe morta está no YouTube até hoje. Tentei diversas vezes tirá-lo do ar, mas nunca consegui.

Até eu hoje eu, se quiser, posso ver aquela imagem dela morta. Queria ter perguntado para ela [repórter] quem editou a matéria daquele jeito. Quem decidiu mostrar o rosto da minha mãe sem vida. Mas foi muito difícil para mim e o jeito que ela me recebeu me pegou de surpresa.

Mas no final de Mataram o meu Irmão você mostra as fotos do seu irmão morto. E a sensação de vê-las é muito pesada porque você passa a “conhecer” o seu irmão. Ver no final do filme o corpo dele jogado em uma vala e seu rosto sem vida é muito duro.
Eu tinha dúvidas quando decidi colocar aquelas fotos, que são da perícia da polícia, no filme. Achei que iria apanhar muito por isso. O Jean-Claude [Bernadet] (cineasta belga naturalizado brasileiro) era favorável a colocar. Ele me disse que colocando aquelas fotos eu purificaria o meu irmão, que ele parecia um Cristo crucificado. Aquilo me trouxe um pouco de alento, mas, na verdade, não muito.

É uma cena que sempre me pesa. Eu sempre que mostro os filmes, assisto. Acho que eu tenho que ‘pagar esse preço’, sabe? Se eu mostrei, tenho que ver. Você sempre paga um preço porque alguém vai se sentir incomodado com alguma cena, mas é o preço. Não posso me acovardar.

No Meu Irmão eu acho que precisava daquela força. Eu tinha que mostrar aquilo. Porque quando você fala de um menino de 22 anos, pai de dois filhos que é brutalmente assassinado com sete tiros pelas costas, você precisa mostrar. Muita gente pode achar que ele era um bandido, não estou aqui para defendê-lo disso. Mas vendo hoje… Eu não mostraria aquelas fotos. Tenho dois sobrinhos que cresceram e vão ver aquela imagem para sempre, como eu vi a da minha mãe.

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