Como a mídia ignorou os supostos casos de abuso sexual de Michael Jackson

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Meses depois de o Rei do Pop enfrentar as primeiras acusações públicas de abuso sexual, a jornalista Maureen Orth, da revista Vanity Fair, escreveu em janeiro de 1994: “até mesmo para os padrões de Hollywood, a esquisitice de Michael Jackson é lendária, mas ele sempre foi protegido pela armadura de celebridade”.

“Quase ninguém, especialmente os presidentes de empresas e magnatas que faturam milhões com ele, questionou seus motivos: por que esse homem-criança recluso, sem histórico de relacionamentos românticos, prefere viver uma vida de fantasia na companhia de crianças”, escreveu Orth sobre o cantor, que depois viria a fazer um acordo extrajudicial com um de seus acusadores, Jordan Chandler.

O documentário Deixando Neverland (Leaving Neverland), da HBO, é uma escavação devastadora do impacto do abuso sexual na vida das vítimas e de suas famílias. Mas, particularmente na segunda parte, o documentário dá pistas de como o estrelato permitiu que Jackson ficasse longe do escrutínio da mídia durante boa parte de sua carreira.

Como em tantos outros escândalos de abuso sexual, os meios de comunicação tinham o desafio de corroborar as acusações contra Jackson. Segundo a reportagem de Orth, alguns veículos consideravam as histórias obscenas demais.

Orth detalhou como as pessoas muitas vezes levavam as histórias envolvendo Jackson para os tabloides, porque receberiam dinheiro por elas. Veículos de respeito, como o The New York Times e o Los Angeles Times, não cobriram extensivamente as acusações de Chandler em 1993. Quando o fizeram, o foco foi na defesa da equipe de Jackson, que afirmava que o cantor era vítima de extorsão.

“Muita gente simplesmente não queria acreditar que Michael Jackson fosse capaz de molestar meninos, e a cobertura tépida da imprensa do establishment refletia a repugnância e a ambivalência do público”, escreveu Orth.

Jackson, que morreu em 2009, era o produto de uma máquina de criar mitos, da qual jornalistas, fãs e as pessoas de sua órbita – incluindo os acusadores de Neverland, Wade Robson e James Safechuck e suas famílias – acabaram sendo parte, mesmo que involuntariamente.

Amo as crianças e aprendo muito com elas. Entendo que muitos dos problemas do mundo hoje – dos crimes nas grandes cidades à guerras, o terrorismo e as prisões superlotadas – são resultado do fato de que as crianças tiveram suas infâncias roubadas.Michael Jackson, 1993

A máquina continua operando hoje. A família, os herdeiros e os fãs protestaram contra o filme e fizeram ameaças contra Robson, Safechuck e o diretor Dan Reed.

Um olhar sobre a cobertura da imprensa nos anos 1980 e no começo dos 1990 mostra que a máquina pode ter ajudado as pessoas a ignorar os sinais.

Com a ajuda de uma equipe astuta, que perseguia quem o criticava, Jackson controlava sua imagem.

Jackson sempre negou as acusações que pesaram conta ele e foi absolvido num julgamento em 2005. Ele sempre teve defensores que argumentaram que as acusações tinham como objetivo derrubá-lo. Uma reportagem de capa da revista GQ, de 1994, questionava se ele tinha sido incriminado injustamente, chamando a cobertura das alegações do ano anterior de “um dos piores episódios de excesso da mídia”.

Dine Dimond, repórter do programa de TV Hard Copy, deu o furo das primeiras acusações em 1993, mas descobriu que fontes próximas ao cantor tinham sido instruídas a não falar ou “queriam dinheiro”.

“Elas diziam: ‘Queria te contar uma coisa de Michael. Ele é um menino querido, e por 5 000 dólares eu vou ao seu programa para dizer isso’. Isso me impediu de apresentar o lado completo de Jackson”, disse ela, em 1994.

Segundo a Vanity Fair, a jornalista foi ameaçada por representantes de Jackson (o que eles negaram). Dimond escreveu mais tarde que foi atacada por fãs do cantor. O carro dela foi arrombado, e “o telefone do meu escritório foi grampeado pelo investigador particular de Jackson (o que fontes do FBI confirmaram)”, afirmou ela em 2005.

Peter Still via Getty ImagesJackson se apresenta com crianças na turnê Bad, em 1988.

Jackson alimentava sua imagem “imaculada” e seu apelo universal dando poucas entrevistas e levando a mídia a falar do seu trabalho de caridade envolvendo crianças.

Jackson tinha poder sobre sua imagem e evitava dar entrevistas, como observou um perfil de 1987 publicado pela revista Rolling Stone, que detalhou sua “mania por controle”. O diretor Steven Spielberg – que colocou Jackson como narrador da trilha sonora de E.T. – disse à revista em 1983 que o cantor era “um dos últimos inocentes vivos com controle completo sobre sua vida”.

Nas raras ocasiões em que Jackson concordava em dar entrevista, elas costumavam ser focadas em seu trabalho filantrópico e tinham tom positivo, como um perfil publicado em 1992 pela revista Ebony que afirmava que o cantor era vítima de “uma campanha negativa da mídia”.

ASSOCIATED PRESSMichael Jackson e sua então mulher, Lisa Marie Presley, dão um tour de Neverland para crianças.

Muitas das iniciativas de caridade que ajudaram a criar a imagem pública de Jackson envolviam ajuda para crianças doentes. Algumas delas eram convidadas a passar alguns dias no Rancho Neverland – e alguns dos supostos abusos aconteceram nessas excursões.

“É parte do meu dom fazer todo mundo feliz, trazer felicidade para todos, especialmente crianças assim”, disse Jackson ao Newsday em 1989, quando ele conheceu Darian Pagan, um menino de 4 anos que sofria de leucemia. “Meu sonho é fazer uma turnê e ver todas as crianças do mundo, todas as crianças com fome. Imagine só.”

Jackson costumava cercar-se de crianças em suas aparições públicas. Em uma reportagem do programa PBS Newshour de 1985, que tratou dos famosos comerciais do cantor para a Pepsi, a analista de marketing Faith Popcorn falou do motivo pelo qual as crianças estavam entre os maiores fãs do cantor.

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“Todas as crianças do país imitam Michael Jackson”, disse ela, segundo uma transcrição do programa. “E deve ser a fantasia de todo menino encontrar Michael Jackson.”

Dois anos depois, um dos comerciais tinha a participação de Safechuck, na época com 9 anos, encontrando Jackson num camarim. 

Os perfis de Jackson sempre tinham um tom de fascínio e curiosidade, classificando o comportamento questionável do cantor como “excentricidades” inócuas.

A cobertura da imprensa nos anos 1980 e no começo dos 1990 descrevia o cantor como “alma de criança”, “inocente”, um “enigma”, um “recluso”.

Certas reportagens falavam de passagem das visitas de crianças ao rancho e quantos de seus amigos era crianças, detalhes hoje inquietantes. Uma reportagem de 1992 da Rolling Stone descreveu os retiros bizarros de Jackson com crianças:

Jackson frequentemente leva crianças para brincar com ele. Segundo seu porta-voz pessoal, Bob Jones (que começou a trabalhar com Jackson na Motown, quando o cantor era membro do Jackson 5), esses [retiros] regularmente envolvem ônibus cheios de crianças carentes e com doenças terminais (como o falecido Ryan White), bem como jovens amigos pessoais do cantor.

“Quando as crianças estão aqui, às vezes ficam tão empolgadas que nem conseguem dormir”, diz Lee Tucker, que ajudou a projetar a sala de cinema de Jackson e trabalha como projecionista. “Às vezes me ligam às 2h da manhã: ‘Lee, você pode colocar tal filme?’ Não tem hora de ir para a cama em Neverland. As crianças é que mandam.”

Em certas reportagens da época, Robson é descrito como um dos “jovens amigos” de Jackson, e Safechuck como seu “novo amiguinho”.

New York Daily News Archive via Getty ImagesJames Safechuck (à direita) com Michael Jackson e Liza Minelli, em 1988. A legenda original da foto chama Safechuck de “novo amigo” de Jackson.

O noticiário também enfatizava como o cantor gostava de estar com crianças porque não teve infância.

Jackson costumava dizer aos jornalistas que se sentia mais à vontade com crianças porque ele se relacionava melhor com elas que com os adultos.

“Elas não usam máscaras”, disse ele à Rolling Stone em 1983.

Em um perfil de 1992 da mesma revista:

Jackson gosta muito de crianças. Quem o conhece acredita que um dos motivos pelos quais consegue relaxar com elas é que ele realmente acredita que elas gostam dele por quem ele é, não porque ele é uma estrela. Como observa um colaborador dele: ‘Se você mede menos de um metro, tem acesso completo a Michael Jackson’.

O cantor e seus defensores atribuíam esse comportamento ao fato de que Jackson foi famoso a vida inteira e vivia sempre numa bolha.

“Para Michael, como para qualquer outra estrela, realidade e ficção se confundem”, disse em 1992 o diretor John Landis, que dirigiu o videoclipe de Thriller. “É difícil manter-se são.”

A infância difícil de Jackson também era mencionada, incluindo as supostas agressões de seu pai controlador. Jackson falou a respeito numa entrevista ao vivo com Oprah Winfrey, em 1993. Mas essa defesa tem muitos complicadores. Como escreveu Daniel Engber no site Slate, “a teoria da transmissão intergeracional do abuso” é uma afirmação complexa, porque “a ciência tem muitas nuances e ressalvas para permitir uma explicação tão definitiva”.

Essas matérias muitas vezes afirmavam que Jackson tinha duas imagens: uma de superestrela, um artista inigualável; outra, um objeto de fascínio dos tabloides.

“Acho que ele é mesmo Peter Pan”, disse seu coreógrafo Michael Peters ao New York Times em 1984. “Ele é essa dicotomia constante de homem e criança. Ele pode administrar corporações e dizer às gravadoras o que quer, e então ele pode brincar com um amigo de 12 anos durante horas no seu trailer.”

“Como artista, ele não tem par”, escreveu a Rolling Stone em 1987, ao mesmo tempo observando que Jackson era simultaneamente “a estrela-gênio, uma celebridade durante praticamente a vida inteira, que vive em um reino de conto de fadas com outras celebridades, animais, manequins e desenhos animados…”

As reportagens de tabloides sobre “suas tramas para comprar os restos do Homem Elefante, para oxigenar seu corpo dormindo em uma câmara hiperbárica ou se casar com Elizabeth Taylor” consolidaram ainda mais essa imagem.

Embora Jackson tenha denunciado essas matérias como “completamente inventadas”, notadamente na entrevista para Oprah, cujo objetivo de reabilitar sua imagem, algumas reportagens sugerem que os boatos possam ter sido plantados por ele mesmo ou por seus representantes.

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Em fevereiro de 1993, semanas após a entrevista para Oprah e meses antes das acusações de Chandler, Jackson recebeu o Grammy Legend Award. Seu discurso de aceitação agora parece um resumo assustador de todas as suas diferentes defesas apresentadas ao longo dos anos.

“Eu não sabia que o mundo achava que eu era tão estranho e bizarro. Mas, quando você cresce como eu, na frente de 100 milhões de pessoas desde os 5 anos de idade, você é automaticamente diferente”, disse ele. “Minha infância foi completamente tirada de mim. Não tinha Natal, não tinha aniversários. Não foi uma infância normal, não teve os prazeres normais da infância. Eles foram trocados por trabalho duro, luta e dor.”

Jackson então agradeceu a “todas as crianças do mundo, incluindo as doentes e carentes”.

“Amo as crianças e aprendo muito com elas”, disse ele. “Entendo que muitos dos problemas do mundo hoje – dos crimes nas grandes cidades à guerras, o terrorismo e as prisões superlotadas – são resultado do fato de que as crianças tiveram suas infâncias roubadas.”

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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