Ela é a única mulher DJ em ação no funk carioca: A paixão de Iasmin Turbininha

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Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilIasmin Turbininha é a 354ª entrevistada do “Todo Dia Delas”, um projeto editorial do HuffPost Brasil.

“E aí, rapaziadinha?”

É com este grito, quase um bordão, que a DJ carioca Iasmin Turbininha, 22, começa suas apresentações que vêm incendiando as pistas e bailes da cidade nos últimos anos. Funkeira assumida desde a infância, Iasmin é hoje um dos maiores expoentes do funk 150 BPM (batidas por minuto), ou “funk acelerado”, responsável por alçar o Rio de Janeiro de novo aos holofotes do ritmo, depois de anos de soberania do “funk ostentação” paulista. Em um cenário majoritariamente masculino, ela se destaca não só pelo sucesso e shows lotados: é também a única mulher DJ em ação no funk carioca. E a primeira delas a surgir de uma comunidade.

Aprendi sozinha, vendo tutorial na lan house.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilEm um cenário majoritariamente masculino, ela se destaca não só pelo sucesso e shows lotados: é a única mulher na área.

Nascida e criada na Mangueira, Iasmin lembra com precisão surpreendente dos finais de semana em que via a favela ser tomada por todos os ritmos. Com família de componentes da escola verde-e-rosa ela confessa que até gostava de samba, mas era em dia de baile funk com a mãe que se acabava na dança e começava a se relacionar com o ritmo que, anos depois, mudaria a sua vida.

Assim, uma artista autodidata começou a surgir. Depois que viu um amigo produzir músicas no baile da Mangueira, ela começou a fazer o mesmo. Em 2011, criou um canal no Youtube com algumas produções próprias. Foi aos poucos. “Aprendi sozinha, vendo tutorial na lan house. Não tinha computador, então trabalhava ali de 13h até a noite. Aprendi a fazer vídeos, depois me interessei mais por produções. Sabe quando você vê algo sendo criado do zero? Fiquei mais interessada ainda.” 

Me interessei por produções. Sabe quando você vê algo sendo criado do zero?

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilNascida e criada na Mangueira, Iasmin lembra com precisão surpreendente dos finais de semana em que via a favela ser tomada por todos os ritmos.

Antes de entrar de vez na carreira de DJ, Iasmin trabalhou em uma famosa rede de fast-food. As boas línguas dizem que, caso ela perseguisse a carreira no estabelecimento, conseguiria alçar altos cargos. Mas não era o que estava ela queria. Após um acidente no restaurante, houve redução de vagas e ela cedeu seu lugar para uma jovem recém-admitida, com problemas financeiros.

“Depois disso, voltei a estudar, concluí o ensino médio e comecei na sequência a carreira. Naquela época eu não tocava em festas ainda, mas o Youtube estava rendendo alguns trocados”. Vizinhos e colegas pediam que ela apresentasse as faixas em festas e resenhas.

“Na primeira vez, estava nervosa mas toquei para 80 pessoas. Quando vi todo mundo curtindo, me deu o gostinho de quero mais, e eu queria tocar mais. Toquei até o final da festa e não parei”. E nunca mais parou.

Quando vi todo mundo curtindo, me deu o gostinho de quero mais, e eu queria tocar mais.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilÚnica mulher no cenário, ela reconhece que hoje também é mais fácil a libertação das mulheres que a cercam, como as MCs que cantam aquilo que bem quiserem.

Dali, passou a tocar no Baile da Nova Holanda, reduto do 150 BPM. O baile era conhecido como “o mais acelerado do Rio”, e até hoje não é incomum ver o dia raiando sob o ritmo. A manhã, aliás, é o horário preferido de Iasmin para curtir um baile. Se hoje o funk acelerado ganhou o Brasil, quando Iasmin, DJ Polyvox (o criador dessa forma de tocar) e mais outros DJs cariocas apostaram no ritmo, a enxurrada de críticas veio. “Muita gente criticou, mas quem curtia os bailes sabia que era bom”, relembra, e foi nessa compreensão que os DJs se firmaram. Desde então, o funk acelerado tomou rádios, favelas, clubes de herdeiros e serviços de streaming.

Muita gente criticou, mas quem curtia os bailes sabia que era bom.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil“Putaria tem em todos os ritmos: pagode, forró, sertanejo.”

Os podcasts, faixas e apresentações de Iasmin sempre dão o que falar. Com no máximo cinco apresentações por noite, em todos os cantos do Rio, ela não dispensa tocar o “funk putaria” que, sim, tem muitos palavrões e faz juz ao nome. Não é necessariamente uma “marca registrada” do estilo dela, que não se importa com as críticas que recebe.

“Putaria tem em todos os ritmos: pagode, forró, sertanejo. O funk é mais criticado por ser da favela. Se veio da favela, não vai ser tão valorizado, e sofre preconceito com a batida ou por ter letras muito diretas. Essas coisas na lata fazem as pessoas não gostarem muito. Mas tem sempre alguém que gosta e é isso que importa.”

O funk é mais criticado por ser da favela.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilNo palco e nas carrapetas ela se transforma para, em seguida, colher apenas os frutos daquilo que planta todos os dias: afeto.

Única mulher no cenário, ela reconhece que hoje também é mais fácil a libertação das mulheres que a cercam, como as MCs que cantam aquilo que bem quiserem. Movimento que não é inédito, mas era mais tímido nos últimos anos. “Acho que mais mulheres estão em destaque, não é só o homem falando sobre se satisfazer sexualmente, mas as mulheres também. Direitos iguais. Antes, o funk não tinha isso e reclamavam que só cantava a satisfação do homem, mas era porque tinha mais MC homem. Está mudando.”

Lésbica e comprometida, Iasmin comenta sobre eventuais críticas que possa receber sobre sua origem, orientação sexual ou classe social: “Eu corto ligações, não me estresso”. E explica que, na infância, presenciou muitas brigas de seus pais, o que a fez ser ainda mais pacífica. Essa característica se reflete no seu trabalho e na forma como lida com as críticas a ele, também. 

As pessoas gostam muito de criticar, mas ninguém quer fazer melhor.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilQuem conversa com Iasmin não imagina, realmente, sua correria, sua timidez e, talvez, sua doçura.

“As pessoas gostam muito de criticar, mas ninguém quer fazer melhor. Às vezes as pessoas falam mal do seu trabalho mas não sabem fazer 1% das coisas que você faz, e não sabem a correria”.

Quem conversa com Iasmin não imagina, realmente, sua correria, sua timidez e, talvez, sua doçura. No palco e nas carrapetas ela se transforma para, em seguida, colher apenas os frutos daquilo que planta todos os dias: afeto.

“A minha ambição era eu aprender a fazer música, fazer o que eu faço hoje, e o reconhecimento vem como consequência, assim como as pessoas que viram fãs. Isso me deixa um pouco envergonhada, mas ao mesmo tempo me deixa feliz. Eu sou muito grata a todo mundo que fecha comigo.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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