Carol Pereira, a mulher que sonha em fazer do esporte uma ferramenta de cidadania

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Valda Nogueira/Especial para o HuffPost BrasilCarol Pereira é a 318ª entrevistada do “Todo Dia Delas”, um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Oswaldo Cruz é um pequeno bairro na zona norte do Rio de Janeiro, com cerca de 30 mil habitantes, mais conhecido por ser vizinho da famosa Madureira e berço de uma das escolas de samba mais tradicionais da cidade, a Portela. É ali também, em um lugar com tantas histórias, que Carolina Pereira, de 31 anos, coordena os projetos sociais da ONG Ceja.com, que completa nove anos neste primeiro mês de janeiro. Nascida com o propósito de formar e ajudar crianças e adolescentes do bairro, a organização tem como principal mote formar o caráter de quem cresce em meio à “subpaternidade” e à escassez de oportunidades. Depois de quase uma década acompanhando de perto suas crianças, Carol hoje afirma estar realizada.

A trajetória da voluntária na ONG começou antes mesmo do espaço assistir. Seu irmão do meio, Daniel, já ajudava crianças do bairro aos 17 anos, até que decidiu transformar as ações em algo mais organizado. Junto com um grupo, que incluía Carol, ele espero alcançar a maioridade para fundar a CEJA.com. Quando finalmente os 18 anos chegaram, Carol começou a tocar a área financeira do projeto, até que um dia decidiu introduzir atividades relacionadas a esportes ali. Com a dedicação da voluntária, os alunos começaram a ganhar competições, principalmente do jiu-jitsu, e assim surgiu a reorganização para que ela comandasse a área dos projetos.

O foco em jovens é porque pensamos na transformação.

Hoje, Carol explica, acompanha tudo mais de perto de quando tinha de lidar com planilhas. Seu irmão, que está no final da faculdade de farmácia, assumiu a área financeira para se dedicar aos estudos. Mas graças a Carol e à equipe, o desejo inicial de ajudar as crianças da área se mantém ― e a escolha do público-alvo não foi em vão.

“O foco em jovens é porque pensamos na transformação. Em Oswaldo Cruz tem muita criança e adolescente vivendo a ‘subpaternidade’, que são aqueles jovens órfãos de fato e também os que não têm os pais presentes porque, muitas vezes, precisam trabalhar. Em muitas famílias acontece do filho mais velho criar os mais novos. Diante dessa realidade, decidimos tentar ajudar, fazer algo para dar sentido. Tem criança e adolescente que a gente sabe que passa o dia na rua, então convidamos para estar lá”, explica Carol.

Carol tem um jeito despojado, apesar de bem centrado, ao contar sua trajetória na ONG. Ao citar as crianças, os olhos brilham e ela fala como se tivesse, além do seu filho, hoje com três anos, mais 150 crianças para chamar de suas. Ela explica que desenvolveu sua empatia e seu jogo de cintura ao acompanhar sua mãe, que é assistente social, em algumas empreitadas de trabalho: “Quando você percebe, está falando com todo mundo e compreendo o que está em volta”, relembra.

Tamanha empatia, ressalta, também tem um fator negativo. Ao lidar com tantas realidades diferentes, ela tem alguma dificuldade em deixar o trabalho em casa e tocar a vida sem deixar alguns relatos tristes interferirem na sua rotina.

“É difícil porque vemos crianças que, na minha visão, são pessoas indefesas que ainda não sabem da vida. Fico pensando em como viver episódios ruins vai impactar essa criança, mudar o rumo dela, e na maioria das vezes para pior. A gente tenta ajudar de todas as formas, mas às vezes preciso até de uma ajuda externa do meu marido para me convencer que há casos em que eu não posso fazer nada além do que eu já fiz”, afirma a voluntária.

A gente se deu conta que o diferencial é trabalho mais humanitário que fazemos, não social.

E o carinho com que a equipe lida com as crianças é o fator diferencial que faz com que, dia após dia, dezenas de meninos e meninas entrem pelas portas da casa e se rendam às atividades que são feitas ali.

“Para jogar futebol, que é algo corriqueiro, eles não precisam estar ali, podem estar em qualquer lugar. Mas por que estão ali? Alguma coisa a gente tem que eles escolhem estar conosco, num quintal e não numa quadra. Acho que esse diferencial é a preocupação com eles individualmente, o abraço, saber se estão alimentados ou bem vestidos. A gente se deu conta que o diferencial é trabalho mais humanitário que fazemos, não social”, define.

Além das atividades como futebol, leitura e jiu-jitsu, a CEJA.com também promove oficinas e aulas de conscientização sobre o meio ambiente e cidadania. Carol explica que o fundamento disso é preparar a criança para a sociedade como um todo: “A gente trabalha mais com a formação do caráter, porque trabalhando o caráter, a criança vai ter uma mente sã para buscar os objetivos e sonhos dela. A gente vê nossas crianças desistindo com facilidade, eles sentem que não podem nada e a gente quer mudar isso”, afirma.

Mesmo estando na ONG desde a sua fundação, Carol, Daniel e outros membros da equipe são voluntários, todos eles. Ela explica que a CEJA.com não recebe nenhum incentivo do governo, nem tem patrocinador fixo. A continuidade dos projetos depende de doações, realização de bazares e outras atividades similares que possam ter algum lucro. Por todos esses anos, Carol, que sempre trabalhou, dividiu sua rotina entre o mercado formal e as atividades como voluntária. No ano passado, demitida da empresa em que trabalhava, dedicou-se totalmente ao serviço da ONG e o que era difícil, aconteceu: se apaixonou mais ainda.

“Quando fui demitida, fiquei desesperada em voltar ao mercado de trabalho. Mas o desemprego também me fez mergulhar de cabeça no trabalho voluntário. Hoje eu sou completamente realizada. Se a ONG pudesse ser uma fonte de renda, eu não pensaria em voltar ao mercado de trabalho nunca mais”, revela.

Trabalhando o caráter, a criança vai ter uma mente sã para buscar os objetivos e sonhos dela.

Enquanto busca voltar ao mercado, Carol se dedica a desenvolver suas crianças. Ela explica que a metodologia de todos os professores, acompanhados bem de perto por ela, tem como principal mote “dar asas” às crianças, e nunca bloqueá-las. Isso inclui ouvi-las, entendê-las e incorporar o que for possível das suas sugestões: “Influenciar positivamente é uma pauta diária com os professores. Eu reforço sempre o cuidado com as palavras, porque eu acredito que a gente pode bloquear ou pode dar asas, e eu prefiro sempre que a gente dê asas”, afirma.

Há nove anos dando asas e ensinando a voar, Carol já viu o ciclo fechar e alunos, antes atendidos pelas atividades, retornarem à CEJA.com para serem professores voluntários. Emocionada, e com dificuldades para encontrar as palavras, ela define esse retorno de forma bem sucinta: “Isso é o que dá sentido. Nosso objetivo é este, vê-los crescer”, finaliza.

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