Paredes, telas e tatuagens: A arte e o trabalho de Carol Murayama

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Caroline Lima/Especial para o HuffPost BrasilCarol Murayama é a 305ª entrevistada do “Todo Dia Delas”, um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Era comum em sua infância. Um desenho de um lado, um caderninho em branco do outro. Observava e copiava, a olho, o que via. Assim, como uma brincadeira. Hoje, sabe que se trata de algo bem maior do que isso – literalmente. Incentivada pelo pai a exercitar essa habilidade, Carol Murayama, 30 anos, pegou gosto pelas canetas logo cedo. E assim cresceu. Lembra que suas cartinhas para a mãe também eram marcadas pelos desenhos. Grandes, sempre em destaque. No canto, alguma mensagem curta como: “mãe, te amo”. Aos poucos, foi deixando de ser uma brincadeira. “Acho que vem da família. Meu tio é artista plástico, minha mãe cabeleireira, meu pai tinha uma loja de informática, mas montava máquinas, meu irmão tem uma bicicletaria, todo mundo trabalha com a mão, ninguém é de escritório em casa. É com a mão e autônomo, todo mundo é assim. Acho que puxei isso”.

Em casa todo mundo trabalha com mão, ninguém é de escritório. É com a mão e autônomo, todo mundo na família é assim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost BrasilCarol deixou o mercado corporativo para assumir de vez seu lado artístico autoral.

Com certeza puxou. Após alguns anos trabalhando na área de moda, Carol deixou o mercado corporativo para assumir de vez seu lado artístico autoral. Depois de ser demitida, resolveu que não procuraria mais emprego na área. Foi ousado, ela sabe. Ainda mais porque sua grande paixão não era só trabalhar com arte, o que já é desafiador, mas era pintar paredes – o que inicialmente pareceu algo estranho. “Minha família é oriental, mais tradicional e eles questionavam: ‘você pinta parede?’. Fica aquela coisa meio: ‘tá, mas e qual é o seu trabalho?'[risos].” Ela é artista. Pinta paredes, sim, e também telas, faz ilustrações e hoje é ainda tatuadora, sempre com foco em criação e em desenhos autorais. É bastante trabalho, na verdade.

Começou como um hobbie quando foi chamada para pintar a parede do hostel de um primo – segundo ela, essa foi a melhor de todas que já fez até hoje. Gostou da coisa e começou a aceitar pequenas encomendas. “Fazia para amigos, parentes, muitas vezes de graça mesmo. Só resolvi me jogar de verdade quando fui demitida pela última vez. No começo foi bem difícil, cobrava pouco, mas qualquer valor que entrava eu já ficava bem mais feliz do que com um salário. Era bem pouquinho, mas a felicidade era muito maior”. Viu que estava no caminho certo. Com o tempo foi se organizando melhor, conseguindo cobrar mais, sendo indicada para trabalhos e as coisas foram dando certo.

Fazia para amigo, para parente, muitas vezes de graça mesmo. Só resolvi me jogar mesmo quando fui demitida pela última vez.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost BrasilCarol lembra que chegou a pensar, “com dor no coração”, a procurar um trabalho em empresas de novo.

Em geral, Carol recebe um temas e cria o desenho em cima disso. É como gosta de desenhar. “Trabalho muito com elementos que contam a história do que estou falando em forma de desenho, é sempre bem carregado, cheio de coisas. Acho que gosto da composição. Meu forte, mais do que o desenho em si, é a forma que misturo e coloco as cores, misturo outras coisas, isso dá o diferencial. Sei compor bem, sei olhar e ver que fica legal desse jeito”. Fora isso, outra marca de suas pinturas, é o uso de preto e branco – e tudo é feito com caneta. “Meu trabalho é muito preto e branco, tem uma referência de é ou não é, eu sou assim, sou muito prática. Gosto e acho que fica bonito, mas hoje em dia estou colocando algumas cores e acho bem legal e desafiador quando pedem com cor”.

Atualmente já considera que está conseguindo conquistar seu espaço, mas no início não foi fácil. Tinha medo de ficar muito tempo sem pegar um trabalho e viver com essa instabilidade era um grande desafio. “A arte não é prioridade para ninguém, é luxo. Então, os artistas sempre correm o risco de serem cancelados, jogados para depois, então é difícil, você não tem uma estabilidade”. Foi quando ela resolveu expandir um pouco sua atuação e passou a se dedicar também a fazer tatuagens. “Eu amo tatuagem, me tatuo faz tempo, tenho vários desenhos que são meus, mas eu tinha medo de ser tatuadora e não poder errar, lidar com pessoas, mas vi que precisava de uma base de renda fora as paredes”.

Gosto da composição. Meu forte, mais do que o desenho em si, e a forma que misturo e coloco as cores e misturo outras coisas. Sei compor bem, sei olhar e ver que fica legal desse jeito.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil“No começo foi bem difícil, cobrava pouco, mas qualquer valor que entrava eu já ficava bem mais feliz do que com um salário.”

Pediu conselhos e dicas para o seu tatuador e novamente voltou para a fase de cobaias – agora não com paredes, mas com a pele das pessoas mesmo. “Comprei uma máquina e foi tudo de novo: amigo, familiar, fazendo de graça, me tatuei, tatuei meu namorado e fui indo. Minha casa tinha gente aqui todo dia e eu tatuando no sofá”, lembra. Atualmente, tem uma boa clientela de tatuagens e consegue ter mais estabilidade, o que foi muito importante para não desistir.

Carol lembra que chegou a pensar, “com dor no coração”, a procurar um trabalho em empresas de novo. Mas resistiu e aprendeu a lidar com esses tempos mais ociosos. Para ela, o segredo é não parar. “Você nunca pode pensar negativo e deixar parar. Faz um curso, faz alguma coisa para você estar sempre evoluindo e trabalho de autônomo é energia, pensar positivo para fazer o negócio crescer. É assim que eu vivo. Quando entro em um momento vago, sem nada para fazer, crio um quadro, faço uns desenhos novos, pego uma parede, pinto e posto para gerar interesse. Tem que girar energia. O mais difícil nem é ser artista, é ser autônomo”.

A arte não é prioridade para ninguém, é luxo. Então, os artista sempre correm o risco de serem cancelados, jogados para depois, então é difícil, você não tem uma estabilidade.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil“Quando entro em um momento vago, sem nada para fazer, crio um quadro.”

E as coisas aconteceram. Tanto que já pode investir ainda mais no próprio negócio e no início de 2019 vai abrir um estúdio-ateliê em um novo endereço, com mais espaço para seu trabalho. Por enquanto, continua fazendo suas criações e suas tatuagens em seu apartamento mesmo, mas feliz da vida com a obra do novo espaço. Fora que boa parte do seu trabalho é mesmo na rua. Vai muitas vezes sozinha – leva uma ajudante a depender do tamanho da parede – e suas canetas.

No início, tinha outro acompanhante cativo. “Meu pai ia nas obras me ajudar a pintar quando ainda era um hobbie e eu trabalhava na moda. Não tinha celular bom e ele tirava foto dos trabalhos com o dele, velhinho, e tinha muito orgulho. Ele morreu antes de eu fazer só isso, mas acho que me apoiaria na escolha”. Com certeza. O que ele sempre incentivou foi que a filha explorasse páginas em branco. Talvez não imaginasse o tamanho que isso fosse ter. “Tenho vontade de pintar um prédio ainda. Meu sonho. Vou chegar lá”.

Uma tela bem maior do que a de um caderninho. Por sorte, ela já tem muita prática.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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