Os insetos são a proteína do futuro, mas não queremos comê-los porque sentimos nojo

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O Rei Leão é conhecido por muitas cenas icônicas, mas não por uma de suas cenas mais prescientes: quando Simba, carnívoro por natureza, pergunta o que haverá para o jantar e lhe dizem que, em vez de carne, o cardápio terá insetos. “São gosmentos, mas matam a fome”, é como eles são descritos.

A Disney certamente não deve ter imaginado que duas décadas mais tarde os mesmos espectadores que curtiam piadinhas sobre comida à base de insetos estariam dizendo hakuna matata para proteína em pó feita de grilos pulverizados ou pedindo gafanhotos assados em partidas de beisebol.

Especialistas concordam que isso é positivo. Muitos afirmam que a entomofagia, ou seja, o consumo de insetos, é nosso destino alimentar. E que já é mais de hora de isso virar realidade.

Apesar da crescente consciência dos benefícios ambientais, nutricionais e éticos da inclusão de insetos em nossa alimentação, os EUA sempre fizeram parte da minoria de culturas que não o fazem. Nos cinco anos passados desde que as Nações Unidas divulgaram um relatório importante destacando como os insetos podem resolver o problema de carência proteica de uma população global crescente, o mercado de insetos comestíveis nos Estados Unidos cresceu mais de 43%.

Não que tenha sido fácil. Vender insetos ao público americano vem sendo um desafio interessante.

À primeira vista, não há nada de especialmente repulsivo na ideia de insetos como alimentos. “O sabor não é tremendamente estranho ou forte – é quase inexistente”, comentou a antropóloga cultural Gina Louise Hunter, da Illinois State University. “Comemos muitas coisas que, pensadas conceitualmente, são muito mais asquerosas, além de serem potencialmente patogênicas”, ela disse ao HuffPost. “A lagosta, por exemplo, vive no fundo do mar e se alimenta de carniça.”

É um problema de percepção. “Simbólica e psicologicamente, classificamos os insetos como não comestíveis”, disse Hunter. “O problema não é que eles sejam sujos e asquerosos, por isso não os comemos – é que não os comemos, e por isso os enxergamos como sendo sujos e asquerosos.”

Nem sempre foi assim. A literatura da antiguidade grega e romana contém várias mênções a insetos diversos que seriam deliciosos. Nos tempos bíblicos as pessoas comiam gafanhotos. Com o passar do tempo, porém, deixamos de comer insetos, e com a globalização, disse Hunter, “o consumo de insetos passou a ser visto como algo primitivo”.

Não é fácil superar esse viés cultural. Os americanos enxergam os insetos como algo que pode ser consumido se alguém estiver morrendo de fome ou para superar um desafio com os do programa de TV “Fear Factor”, e não porque alguém possa sentir vontade de comê-los. Ressalvas semelhantes são feitas em relação a determinadas partes dos animais: por exemplo, as pessoas comem presunto com prazer, mas não testículos de porco, que ficam a apenas cerca de sete centímetros de distância do local de origem do presunto, no mesmo animal.

Stewart Stick Um chef da Entomo Farms prepara um bandeja de grilos para sua próxima receita.

“Existe uma enorme demanda reprimida de alimentos saudáveis e sustentáveis”, comentou Jarrod Goldin, presidente e um dos três fundadores da Entomo Farms, a primeira criação de insetos para consumo humano na América do Norte.

O produto principal da empresa, sediada em Ontario, é formado por grilos secos e em pó. As vendas dobraram no ano passado, fato que não surpreende Goldin. “Grilos são muito mais do que mera proteína”, ele explicou ao HuffPost. Eles contêm fibras, coisa que a carne não tem; ferro, o nutriente que mais faz falta na alimentação de pessoas pelo mundo afora, e vitamina B12, que não pode ser obtida de vegetais. Há pesquisas sendo conduzidas sobre a presença no grilo de ácidos graxos ômega-3, propriedades prebióticas e peptídeos com potencial de inibir a obesidade. Além disso, os nutrientes presentes no grilo em pó têm biodisponibilidade maior que os de outras fontes – ou seja, podem ser absorvidos e utilizados com mais eficiência por nosso organismo. “O grilo em pó é mais remédio que alimento”, comenta Goldin. Ele usa essa lógica para justificar o preço mais alto do grilo em pó em comparação com outras proteínas em pó, como a whey protein, ou proteína do soro do leite.

Outra vantagem do pó de grilo, segundo Goldin, é ser “o ingrediente menos processado que conheço”. Uma das razões por que os grilos estão na vanguarda do movimento de consumo de insetos é a facilidade de sua produção.

Goldin e seus dois irmãos e co-fundadores da Entomo Farms começaram criando insetos para servir de iscas e ração para pets, até que Goldin tomou conhecimento do documento da ONU sobre o valor alimentício de insetos e enxergou uma oportunidade para ter três “granjas” (em breve serão quatro) com mais de 100 milhões de cabeças de “gado”, como ele os descreve. Os grilos vivem em antigas granjas de criação de galinhas, reformadas para funcionar como apartamentos de grilos (pense nos compartimentos de uma caixa de vinho, separados por papelão: os insetos gostam de se esconder nesses cantinhos). Embora eles sejam “grilos caipiras”, ou seja, possam se movimentar livremente, a granja inteira ocupa um espaço de apenas 1.850 metros quadrados. Esse fato, por si só, já representa uma avanço tremendo em relação à criação de gado bovino ou mesmo de frangos. Sem falar que os insetos não emitem valores mensuráveis de gás metano, um dos maiores poluentes do ar.

Os grilos se alimentam basicamente de grãos (e para quem preferir, a Entomo também oferece grilos orgânicos, ou seja, alimentados com grãos orgânicos). Depois de completar quase todo seu ciclo de vida de seis semanas, eles são congelados, limpados, desidratados e moídos para formar um pó. Comparada com outras criações intensivas de animais, a operação é sustentável, tem baixo impacto ambiental e não gera sofrimento para os insetos. “Em matéria de economia e eficiência, os grilos são os insetos mais atrativos”, disse Goldin. “E são uma delícia.”

A maioria dos americanos provavelmente ainda não está preparada para curtir um smoothie com pó de grilo, mas estamos avançando. No ano passado o time de beisebol profissional Seattle Mariners começou a vender chapulines, um prato mexicano tradicional à base de gafanhotos, e as vendas estão indo bem. É interessante e notável que as pessoas se disponham a comer salgadinhos à base de insetos em um contexto tão tipicamente americano. Estamos rompendo algumas barreiras culturais, e não apenas por motivos de saúde.

Uma das pessoas que promove o prazer hedonista do consumo de insetos é Robyn Shapiro, fundadora da Seek, empresa de salgadinhos à base de grilos. Recentemente ela lançou um livro de receitas à base de grilos, The Cricket Cookbook, convidando chefs famosos, incluindo Alison Roman, para criar delícias como húmus de grilo e sorvete de grilo. Shapiro espera que a inclusão de grilos em pratos mais convencionais leve mais pessoas a aderir ao seu consumo. E, se isso não acontecer com a geração atual, ela se satisfará com a próxima.

“Todas as crianças que estão nascendo agora vão crescer em um mundo em que saberão que grilos são algo que se come”, ela disse ao HuffPost.

Gosmentos, mas matam a fome? Os insetos são muito mais que isso.

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