A cartunista considerada ‘suja demais’ para ser aceita até pelo feminismo nos anos 80

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A parede estava coberta de vulvas, ou, pelo menos, termos de gíria usados para descrevê-las. “Dirty Plotte” (B… Suja) e “Sweet Little C**t” (Doce X….) apareciam projetadas pelas paredes da sala de aula do Instituto Pratt onde a legendária quadrinista Julie Doucet se preparava para dar uma palestra. (Para quem não é canadense: “plotte” é como os quebequenses, como Doucet, chamam a vulva.)

As alusões à genitália feminina não pareciam incomodar duas irmãs jovens e quase idênticas sentadas ao meu lado na plateia. Enquanto aguardavam ansiosas pela chegada de Doucet, a irmã mais velha mexia no seu iPhone e a menor desenhava um unicórnio num caderno espiral rosa choque. “É sobre uma garota que tem problemas porque viu um unicórnio”, ela explicou.

Houve uma época em que ninguém teria pensado em Julie Doucet como exemplo para jovens, e muito menos ela própria teria se visto assim. Em 1988, quando ela começou a criar suas tiras semi-autobiográficas “Dirty Plotte”, seu trabalho era tão vulgar e repulsivo que as livrarias feministas não queriam saber dele. Os críticos se incomodavam com seu gosto exagerado pela violência e o sangue, algo que visava tanto mulheres quanto homens.

Em uma de suas tiras mais memoráveis, uma versão cartunizada de Julie está tomando cerveja na rua com um amigo quando este corta fora seu pênis e o entrega a ela, como se fosse um buquê de flores. “Humm, parece uma linguiça”, ela fala e o devora. Em outra tira, Julie relata um sonho em que se masturba com um bookie. Em ainda outra ela está passeando pelo parque quando um executivo a ataca e a corta do pescoço à cintura. Um cachorro acaba devorando suas entranhas.

“Eu não era uma mulher que elas queriam”, disse Doucet à plateia da palestra. “Elas” eram a comunidade feminista da época do início de sua vida profissional.

Mas hoje, 30 anos após sua estreia, ela está cercada de pessoas que a querem –cercada de fãs de suas HQs, nerds de óculos de aro grosso, mulheres tatuadas da geração do milênio e alguns adolescentes e jovens desenhando em seus lugares. Com o passar dos anos, Doucet virou uma lenda na comunidade de nicho dos quadrinhos underground, e a palestra daquela tarde era a prova disso.

O público estava reunido para festejar o novo livro Dirty Plotte: The Complete Julie Doucet, uma compilação de seus desenhos de 1988 a 1998, acompanhada por textos, entrevistas e depoimentos de fãs e amigos. Quando Doucet finalmente começou a falar, a plateia se inclinou para frente em um movimento coletivo, as pessoas se equilibrando na ponta das cadeiras não apenas para poder ver a quadrinista mestre mas também, mais pragmaticamente, para ouvi-la. A artista que castra, menstrua, se automutila e masturba livremente na página é incrivelmente tímida na vida real.

Ela fala em um sussurro suave e vive perpetuamente corada. Durante a entrevista que deu à crítica Anne Elizabeth Moore, a autora da biografia Sweet Little Cunt ofereceu pouco mais que sorrisos grandes e algumas frases curtas e quase inaudíveis. “Vamos falar de menstruação”, disse Moore, iniciando a conversa com um dos temas sobre os quais Doucet mais gosta de desenhar. “O que há para se dizer?”, Doucet respondeu em tom inocente.

Naquele momento uma projeção de uma de suas HQs, intitulada Heavy Flow (Fluxo Intenso), apareceu na parede sobre sua cabeça. Criada em 1989, a tira mostra Julie acocorada sobre sua cama enquanto a mancha entre suas pernas começa a vazar e sujar os lençóis. “Não, não, merda!”, diz a figura em quadrinhos, puxando seu cabelo e segurando a própria virilha em um esforço vão para segurar o vazamento.

Alguns quadrinhos adiante, uma Julie gigante percorre Nova York como se fosse Godzilla navegando uma onda vermelha. Cuspe e ranho saem de todos os orifícios possíveis, enquanto sangue negro jorra de sua virilha como lava. É um dos retratos mais explícitos, grotescos e precisos que já vi de uma menstruação incômoda e forte. Embaixo dessa visão triunfal de monstruosidade feminina –um gesto glorioso de desprezo em relação ao discurso sentimentalóide sobre ciclos lunares e fluxos das deusas –, Doucet, sentada em silêncio, comunicava mais ingenuidade que malícia com seu sorriso.

Drawn + Quarterly A ênfase de Doucet às verdades desagradáveis e fantasias repulsivas, algo que no passado a converteu em pária nos círculos feministas, hoje é vista como uma força sobre-humana.

Nascida em 1965, Doucet cresceu em um subúrbio de alta classe média de Montreal. Garota destemida que gostava de se vestir como garoto e desenhar, ela às vezes se sentia mais à vontade na companhia de meninos que entre suas colegas do colégio feminino católico onde estudou.

Ela começou a criar tirinhas quando estudava na Universidade do Quebec em Montreal e não demorou a se inspirar em suas funções corporais. A menstruação era “fonte de inspiração”, ela dizia. Aliás, a menstruação imbui suas tiras de pura força visual, jogando manchas vermelhas sobre os acontecimentos prosaicos do cotidiano.

Em um primeiro momento ela não imaginou que alguém fosse ver seu trabalho algum dia, e por isso se divertia imaginando as histórias mais doidas e sujas possíveis. Totalmente sem censura, ela não reconhecia limites ou tabus. Seus métodos eram compulsivos, Doucet explicou. “Acho que eu não estava me comunicando com outras mulheres, mas comigo mesma.”

A primeira tira que ela publicou foi desenhada para uma antologia estudantil, em 1986. Nela, uma personagem chamada Dulie Joucet tira toda a roupa, corta fora seus seios e abre seu ventre com uma facada – é a artista revelando as próprias entranhas. Pouco depois disso Doucet abandonou a universidade e começou a viver de benefícios sociais, determinada a concentrar-se em criar mais HQs e mostrá-las a quem se dispusesse a olhar. Em 1988 ela criou a primeira edição de “Dirty Plotte”, uma tempestada grampeada de delírios febris que saía mensalmente no Factsheet Five, uma espécie de diretório da cultura de zines famosa nos anos 1980 e início da década de 1990.

O cenário das HQs underground da época era predominantemente masculino, com uma atitude de vale tudo que valorizava principalmente as fantasias sexuais masculinas heterossexuais (pense em Robert Crumb ou Jack Jackson). Mas havia um pequeno contingente de vozes femininas influentes, entre as quais Aline Kominsky-Crumb, que acabou tomando nota do trabalho de Doucet e convidando-a a contribuir para as antologias Wimmen’s Commix e Weirdo. Como Doucet, Kominsky-Crumb é conhecida por relatar em imagens os detalhes mais íntimos, sórdidos e às vezes humilhantes de sua vida. Doucet pode ter se visto inicialmente como uma voz heterogênea, mas estava começando a perceber que outras mulheres procuravam cometer os mesmos tipos de infrações sociais que ela.

Em 1989 Doucet começou a publicar “Dirty Plotte” pela editora Drawn + Quarterly (também responsável por seu livro de 2018), e as cartas de fãs começaram a chegar em grande número. Leitores (mulheres e homens) a agradeciam por dar voz a pensamentos e experiências sobre as quais eles sempre tinham guardado silêncio. Doucet começou a publicar os depoimentos deles ao lado de seu trabalho.

“Gosto demais dos seus quadrinhos”, escreveu Jessica. “Tanto que eu quis te escrever e contar o nome do meu pênis. Só que não tenho pênis.”

“Meu deus, esse material é perturbador”, escreveu um fã chamado Rob. “Mas deve ser por isso que gosto tanto.”

Drawn + Quarterly Doucet mostra como a vulnerabilidade e vulgaridade de uma pessoa, coisas geralmente mantidas escondidas, podem lhe angariar apoio quando são vividas abertamente.

Doucet também convidou os leitores a lhe enviar anexos do tipo “que você não deve olhar quando está no trabalho”: fotos de pênis, de tatuagens, imagens deles próprios que ela pudesse mutilar e desmembrar no papel. Um fã australiano chamado Robert lhe mandou um desenho dele próprio, em estilo boneco de papel, usando óculos e nada mais. Um machado, uma serra e várias facas boiavam à sua volta. Linhas pontilhadas sugeriam os melhores lugares para operar. “Nunca consegui desenhar pés e mãos”, ele escreveu. “Corte fora.”

As cartas dos fãs foram ficando mais bizarras, previsivelmente. “Gosto de sua revista porque você se parece com minha irmã”, escreveu um leitor. Outro pediu que Doucet o castrasse antes de ele se masturbar de novo sobre os desenhos dela.

Foi o clima lamentável de “nerd bro” dominante no cenário das HQs que levou Doucet a abandoná-lo, em 2006. “Eu estava farta dessa turma feita só de homens”, ela disse à Vulture este ano. “Os homens tendem a ser obcecados com quadrinhos e não se interessar em mais nada. Aquilo me deixou louca.” Desde então Doucet vem fazendo experimentos com outras formas de expressão, desde colagens até curtas-metragens, mas não voltou a criar HQs. Ela me disse que voltará apenas se tiver algo de novo a dizer.

Muita coisa mudou desde que ela entrou para o cenário underground dos anos 1980 e 1990. Sua tendência a expor verdades desagradáveis e fantasias repulsivas, algo que na época a converteu em pária nos círculos feministas, hoje é vista como força sobre-humana. Desavergonhada da melhor maneira possível, Doucet mostra como a vulnerabilidade e vulgaridade de uma pessoa, coisas geralmente restritas aos quartos e aos diários e não projetadas para multidões, podem lhe angariar apoio quando são vivenciadas abertamente. Mesmo sua introversão tem um tom de desafio, o oposto absoluto de seus desenhos em que nenhum detalhe é poupado. Doucet sempre expressa exatamente o que quer expressar – nem mais nem menos.

De todas as coisas desagradáveis que ela já pôs no papel, ela diz que há apenas uma HQ que ela já lamentou ter feito. Intitulada “My First Time”, de 1993, a HQ detalha a maneira pouco especial como Doucet perdeu a virgindade com um artista mais velho e desgrenhado. “Vai ver é assim mesmo”, pensa Julie, de 17 anos, enquanto o homem mete até chegar ao orgasmo – coisa que não ocorre com ela, previsivelmente. Doucet, que descreveu essa relação sexual como “triste e humilhante”, comentou que hoje, olhando em retrospectiva, acha que foi um momento pessoal demais para ter sido exposto na página impressa.

Quando ela explicou isso à plateia do Instituto Pratt, uma jovem de 20 anos se levantou. “Muitas mulheres já viveram experiências desse tipo”, ela exclamou. “Obrigada por criticar o comportamento desse homem.”

“Tudo bem”, disse Doucet com um sorriso modesto.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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