Por que você deveria ensinar aos seus filhos as palavras reais das suas ‘partes’

0
18

Há muitas conversas sérias que os pais têm de ter com os filhos. E, na era dos movimentos “Me Too” e do Time’s Up, uma lição fundamental diz respeito à importância dos nossos corpos e a autonomia sobre o próprio corpo.

“Conscientização sobre o corpo é um dos pontos mais importantes para ensinar para as crianças em termos de saúde e segurança”, diz a educadora sexual Melissa Carnagey. Conversas sobre as partes do corpo e autonomia são a fundação para entender consentimento e maus comportamentos sexuais.

O HuffPost conversou com Carnagey e a também educadora sexual Lydia M. Bowers sobre as melhores maneiras de explorar o assunto com crianças pequenas. Veja abaixo as dicas das especialistas.

Use os termos corretos para as partes do corpo

“Partes do corpo são partes do corpo”, diz Bowers, enfatizando que “pênis”, “testículos”, “vulva” e “vagina” não são palavrões. Os pais têm de ficar à vontade para usar esses termos em casa.

“Não há problemas em falar em cotovelo, joelho e nariz, então por que haveria em falar em pênis, vagina e ânus?”, diz Carnagey.

Há muitos motivos pelos quais as crianças deveriam aprender os termos corretos para as partes privadas, em vez de apelidos. Um deles é que o uso da linguagem correta e o contexto ajudam as crianças a se comunicar com clareza sobre seus corpos. Isso é importante na hora de falar com um médico, por exemplo.

Quando evitamos certas palavras, inculcamos uma sensação de vergonha, de algo a ser evitado ou escondido.Lydia M. Bowers, educadora sexual

“Usar termos precisos também prepara as crianças a falar com confiança sobre as mudanças que vão ocorrer em seus corpos, especialmente com médicos ou em situações em que elas estejam aprendendo sobre saúde”, acrescenta Carnagey.

“Quando evitamos certas palavras, inculcamos uma sensação de vergonha, de algo a ser evitado ou escondido”, diz Bowers. Ela afirma que o uso dos termos corretos é útil para que as crianças mantenham o corpo limpo e saudável.

Evite linguagem ‘bonitinha’

Embora seja tentador usar eufemismos e linguagem “bonitinha” quando estamos falando com crianças pequenas, isso pode causar problemas.

“Existem inúmeros termos, e muitos deles têm outros significados. Isso é arriscado, porque a criança pode não ser compreendida por outra pessoa, especialmente se ela foi tocada naquela parte do corpo e precisa contar para alguém”, diz Carnagey.

As crianças deveriam ser capazes de identificar as partes do corpo que são privadas e usar os nomes corretos para elas, caso tenham sido abusadas sexualmente.

“Se estamos usando termos ‘bonitinhos’ porque temos vergonha de usar os nomes corretos, estamos perpetuando a ideia de que certas partes do corpo são sujas ou ruins”, diz Bowers.

Promova a autonomia corporal em situações do dia a dia

“Criar um ambiente em casa em que os limites de cada um são respeitados é um passo importante”, diz Carnagey. Os pais podem fazê-lo não forçando os filhos a ser afetuosos e ensinando que é melhor pedir permissão antes de dar um abraço.

Ela também diz que toques entre parentes ou irmãos não devem ser necessariamente considerados brincadeira.

“Na minha casa, por exemplo, temos um acordo: ninguém é obrigado a dizer ‘não’ ou ‘pare’ mais de uma vez”, explica ela. “No começo, temos de lembrar e cobrar, mas depois de um tempo, as crianças começam a prestar mais atenção aos limites dos outros e também a esperar que os outros respeitem seus limites.”

Os pais e cuidadores podem promover a autonomia sobre o corpo em circunstâncias do dia-a-dia, como a hora das refeições. “Quando uma criança diz que está satisfeita, evite forçá-la a comer mais uma garfada ou a terminar o prato. É importante respeitar o que o corpo dela está dizendo”, diz Carnagey.

Bowers observa que a hora da leitura ou dos filmes também são boas oportunidades. Os pais podem dizer coisas como: “Será que o príncipe deveria ter beijado a princesa quando ela estava dormindo? Ela não podia dizer sim ou não.”

Mas ela diz que nem sempre é o caso de insistir na permissão – na hora de trocar fraldas, ir ao médico ou tomar banho, por exemplo.

“Se perguntarmos para a criança se ela quer trocar a fralda e ela responder ‘não’, restam duas opções. Ou desrespeitamos o pedido dela ou a deixamos com a fralda suja, o que é um risco para a saúde”, explica Bowers. “Melhor conversar sobre o assunto. ‘Está na hora de trocar a fralda. Seu corpo fez o que tinha de fazer e agora vamos tirar a fralda suja. Vou usar esse lencinho…” Podemos mostrar que o corpo da criança merece respeito.”

Existem maneiras de ajudar as crianças a aprender a confiar em seus instintos – o que pode ser um passo fundamental no ensino da autonomia corporal e da contextualização das experiências difíceis.

“Ter o hábito de checar de vez em quando como as crianças estão se sentindo e dar espaço para que elas crianças falem é uma ótima maneira de aumentar a consciência sobre o corpo e melhorar o uso da linguagem.Melissa Carnagey, educadora sexual

Carnagey sugere ensinar as crianças a identificar seus sentimentos. Pais e cuidadores podem fazê-lo mediante perguntas como: “Como você está se sentindo agora?”. Também é importante prestar atenção na linguagem corporal dos pequenos: “Vejo que você está franzindo a testa. O que você está sentindo?”

“Ter o hábito de checar de vez em quando como as crianças estão se sentindo e dar espaço para que elas crianças falem é uma ótima maneira de aumentar a consciência sobre o corpo e melhorar o uso da linguagem’, afirma ela. “Isso faz das crianças comunicadoras mais eficientes.”

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui